Qual o limite da militância ideológica? O respeito!

Imagem: instagram pessoal

Um fato curioso tomou conta das redes sociais, e até mesmo manchetes, nesta quinta-feira (2): uma atriz reconhecida teve de se retratar de uma professora após “postar” em sua rede social diálogo onde a interpelava uma docente por esta haver se dirigido “apenas” às mães no que solicitava apoio às atividades educacionais online impostas pela pandemia.

Poucas horas depois, apagou a postagem e se retratou, reconhecendo que não deveria ter levado à público o diálogo, o que seria vexatório com a profissional de educação.

Sem querer conjecturar, mas já o fazendo, possivelmente também ponderou o fato de que a disseminação do diálogo, conquanto vexatório, poder-lhe-ia render um vultoso processo por difamação.

Mas, o ponto que gostaria de expor aqui é o limite que o ativismo deve se impor no seu afã de promover, muito justamente, as modificações de percepção acerca de “males culturais” como se pretende.

Um valor anterior aos direitos sociais, e um dos pilares da sociedade ocidental, são os direitos do indivíduo, em especial o direito à proteção de sua dignidade, ou simplesmente o respeito.

Em que pese ser mais que pertinente o questionamento da atriz quanto ao estancamento dos pais do processo de educação de seus filhos, e à carga sobre as mulheres nesse sentido, a atitude nem de longe foi aceitável.

Há sim de se questionar e se debater a marcação comunicacional que nos leva a costumes muitas vezes linguísticos que determinam estas marcas e orientam comportamentos, porém, há de se pesar que o mero fato de uma pessoa se expressar individual, automática e espontaneamente, refletindo valores datados, é congruente a décadas de nossa própria socialização, não havendo qualquer enviesamento ou insulto na sua conduta.

Pelo contrário, ademais a boa intenção e a corretude da análise da atriz no caso quanto à marcação comunicacional e a necessidade de se buscar a modificação da conduta social, o respeito ao indivíduo é primaz nessas situações, não sendo aceitável em hipótese alguma a exposição e o achaque à personalidade da professora.

Eis aqui um ponto de inflexão que deve ser estendido ao máximo nesse momento, onde um mundo em distopia se questiona acerca da necessidade de uma mudança profunda em seus costumes e estruturas – vale a pena destruir sujeitos que não se adequam à modificação, não agem por dolo em favor do que seria um bem comum?

Esta atitude é vista costumeiramente em debates, protestos e mesmo em esferas mais sofisticadas da análise como as universidades: é muito comum a “marginalização” de pessoas por conta de suas minucias comportamentais e linguísticas, como que se fosse um criminoso, por exemplo, um senhor de 90 anos que não se percebe o próprio “preconceito” acerca da masculinidade – como se fosse possível se sobrepor uma verdade “maior” à décadas de condicionamento social imediatamente.

Repare que nem falei de questões de opinião e liberdade de expressão, estou me referindo apenas a questões comportamentais.

Para exemplificar em termos mais simples, esta professora, possivelmente, coaduna com os mesmos princípios da atriz no que se referiu aos genitores dessa forma como que um ateu que em momento de eloquência fala: “graças à Deus”.

Esta demonização da conduta, desprovida de quaisquer sopesar dos séculos de socialização e a culpabilização do indivíduo por mera conduta involuntária está nos levando a um estado disfuncional de coisas, onde a colmeia se sobrepõe ao indivíduo e o abate – isso é um achaque ao valor humanitário e pode acabar por descambar em uma fagocitose sociológica.

Sem contar que potencializa ações contrárias ao progressismo que se propõe, com potencial para forçar, não um avanço em direção à consciência,  mas ao retrocesso ideologizado posto a cabo em ações políticas radicais.

Está na hora de parar para pensar melhor.

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Tiago Lucero é antropólogo e sociólogo, estudou Economia e Direito, é especialista em antropologia econômica com histórico de 16 anos de serviço público em diversas áreas.

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