IBANEIS: “Não vi nenhum fato que pudesse levar a essa prisão”

Governador Ibaneis | Foto: Michael Melo

Chefe do Executivo local considera a detenção do secretário de Saúde, Francisco Araújo, desnecessária e avalia que a crise sanitária começa a dar sinais de melhora. “A pandemia pegou todos de surpresa. Todas as áreas. Abateu a todos, comércio e empresas”

Em meio à crise provocada pela suspeita de irregularidades nas compras de testes rápidos, o governador Ibaneis Rocha (MDB) afirma, em entrevista exclusiva ao Correio, que não se pode apontar o dedo para nenhum dos investigados. Na visão do emedebista, a prisão do secretário de Saúde afastado, Francisco Araújo, e outros gestores da pasta, foi desnecessária e que a investigação do Ministério Público poderia seguir apenas com o afastamento deles do cargo.

“Do meu ponto de vista, não acredito que haja culpa. Li os documentos. Sou advogado e não vi ali nenhum fato que pudesse levar a essa prisão, mas é direito do Ministério Público fiscalizar e é direito do Poder Judiciário decidir”, declarou. “Agora, caso seja comprovado, cada um com a sua culpa. É bom deixar claro isso. Tenho convicção de que não participei de nenhum desses atos e, até que se apresente a denúncia e se faça a defesa, eu os tenho como inocentes”, acrescentou.

Ibaneis avalia que o cenário da pandemia no DF começa a melhorar e que o pior momento passou. Para o governador, a tendência, a partir de agora, é de queda no número de casos, e o sistema público da capital tem condições de atender à demanda atual. Na entrevista, o governador também tratou de temas como economia, eleições de 2022 e avaliou a atuação do governo federal na gestão da crise sanitária.

O senhor foi extremamente elogiado no início da pandemia, porque teve a coragem de tomar medidas necessárias. Mas, depois, de repente, resolveu reabrir tudo. O que houve?
Desde o início, quando reunimos os técnicos, tínhamos um cronograma do que aconteceria. Vimos no cenário mundial quais as experiências boas e quais as que deram errado. E tínhamos uma ideia de quando seria a data para começar a reabertura. Então, fizemos o isolamento inicial, passamos de 70%, mas tínhamos a previsão de que, a partir de um determinado momento, esse isolamento ia cair naturalmente, porque ninguém aguenta ficar recluso um tempo maior do que 60, 65 dias. A partir dali, tem que fazer um processo de reabertura. De outro lado, tínhamos que acelerar no lado da saúde para poder, no momento da reabertura, ter leitos para acompanhamento dessas pessoas. Conseguimos, ao longo do período, colocar leitos de UTI e de enfermaria num número também programado.

O pessoal da saúde trabalhou para programar o que seria necessário naquele determinado momento. Isso tudo foi cronometrado. A gente sabe que tem as variáveis. Até essa data, em que chegamos, se vocês lembrarem, eu falei que na segunda quinzena de julho e início de agosto teríamos o pior período e, a partir daí, começariam a cair, e isso está acontecendo, tanto que temos leito sobrando, tanto de enfermaria quanto de UTI.

A tendência, então, é que comece a cair mais acentuadamente?
A tendência é exatamente essa, porque você tem uma conta em que, para cada pessoa que teve a infecção, em torno de 10 tiveram contato com o vírus. Isso coloca o DF em torno de 800 mil pessoas que tiveram contato com o vírus, o que nos deixa próximo ao que se chama de imunidade de rebanho, o que faz com que tenha uma queda mais acentuada.

O senhor acha que tem espaço para a volta das escolas ainda este ano?
A questão escolar é um pouco mais difícil. Tem que dividir em grupos. Existe o grupo do ensino médio e esse tem uma dificuldade, porque tem o Enem, que está marcado. E temos o grupo dos menores, em que há uma dificuldade maior, no que diz respeito à higienização e no retorno para suas residências. Eu, hoje, sinceramente, entendo que a medida mais correta, e está sendo adotada pelo secretário de Educação, é ter muita cautela em tratar desse retorno. Penso que antes do mês de outubro a gente não consiga voltar, mas vamos tentar fazer o máximo possível para levar algum conteúdo para que essas crianças não percam o contato com as escolas.

O pessoal do ensino médio, então, volta quando?
Estamos focando para que eles tenham, mesmo a distância, um conteúdo mais próximo do que seria o presencial. E, se tiver que voltar, temos condições de colocar as medidas sanitárias bem mais próximas daquilo que é exigido pelos órgãos de saúde.

A gente vê que muita gente não está mais seguindo as regras, age até como se não estivéssemos num momento como esse. Há receio de segunda onda, por causa desse comportamento?
Sempre foi preocupante, não tenha dúvida. Mas, como a população do DF é muito restrita — temos 3,2 milhões de habitantes —, diferentemente de outros países onde houve uma nova leva. Não acredito que tenhamos uma segunda onda. E esse acreditar meu é baseado no que os técnicos informam.

Então, chegamos à imunização de rebanho?
Não, para chegar à imunização de rebanho completa temos que passar de 1,2 milhão de pessoas que tenham tido contato com o vírus.

Mas, o pior momento já passou?
Sem dúvida nenhuma, mas isso não quer dizer que as pessoas tenham que relaxar. O uso de máscaras é necessário, a não aglomeração, a multa continua e continua, também, a fiscalização. A gente sabe da dificuldade que tem para fiscalizar, porque o número de fiscais é pequeno. Principalmente, nos bares e restaurantes. Os restaurantes, por exemplo, tenho visto cumprir com mais rigor as regras. No que diz respeito aos bares, não posso falar a mesma coisa. Tenho visto, nas matérias que a imprensa publica, que existe uma desobediência, que pode ser natural, mas não deveria acontecer.

O senhor acha que a abertura dos bares e restaurantes teve influência no resultado de julho, como afirmam os especialistas?
Não, o resultado ia ser esse de qualquer maneira. Quando chegamos ali, em torno de 42% só de isolamento, a gente sabia que o máximo que ia conseguir manter era em torno de 40%. E, hoje, nós temos 39% de isolamento e essa é a média que a gente já aguardava. Então, não tem esse efeito que é colocado. E é o que a gente diz: o isolamento só serve para uma coisa, para você preparar o seu sistema de saúde.

Tivemos a prisão do secretário de Saúde, um pedido de CPI na Câmara Legislativa. Como o senhor está lidando com isso?
Em primeiro lugar, temos a função do Ministério Público que tem que ser respeitada. Eles estão aí para fiscalizar. A ordem minha, aqui, sempre foi de manter as portas abertas para o Ministério Público, entregando todos os dados e todos os documentos. Até para que eles realizassem a operação, nada do que foi feito, foi sem que a gente fornecesse os documentos. Do meu ponto de vista, não acredito que haja culpa. Até porque eu li os documentos, sou advogado e não vi nenhum fato que pudesse levar a essa prisão. Mas, é o direito do Ministério Público de fiscalizar e o direito da Justiça de decidir. E o que diz respeito à Câmara Legislativa, acho que ela está no seu papel, ela tem realmente o dever de investigar. (…) Como Poder Executivo, temos que fornecer todos os dados. Abrir as portas para que possam seguir nas investigações. Caso seja comprovado, cada um com a sua culpa. É bom deixar claro isso. Tenho convicção de que não participei de nenhum desses atos e, até que se apresente a denúncia e eles façam sua defesa, eu os tenho como inocentes.

Onde a prevenção falhou?
Acho que não houve falta de prevenção. Nós vivemos um momento de pandemia em que ninguém tinha testes. Era algo que não existia no Brasil, falava-se em importação, o próprio governo federal editou uma lei exatamente para proteger esses gestores. Aquilo que você tinha lá atrás, que custava R$ 180, hoje se compra por R$ 20 no mercado. Querer comparar esses preços nesse momento é uma coisa muito difícil. Chegamos a abrir oito pregões e não aparecer nenhuma empresa que tivesse condições de entregar o material. Acho que pode ter ocorrido algum erro na condução, mas não que implique corrupção e sobrepreço. Nós fizemos aqui o melhor trabalho, eu posso dizer, de todos os estados. Conseguimos um hospital de campanha entregue, tudo fiscalizado pelo Ministério Público. Tivemos Rio de Janeiro, Goiás e outros estados que não entregaram. Nós fomos o estado que mais testou. Chegamos em torno de 17% (da população) de testes, o que nos deu segurança para poder fazer todo esse processo de reabertura. Acho que essas coisas vão acabar se esclarecendo ao longo do tempo, com as defesas que serão produzidas, com os laudos técnicos que serão feitos. O que temos, hoje, é uma decisão numa medida cautelar. Não temos sequer denúncia. Então, não podemos apontar o dedo ainda para ninguém.

O senhor acha que houve exagero, então, do Ministério Público e do Judiciário nessas prisões?
Acho que não era necessário. Se era uma questão de continuidade do delito, que eles dizem haver, bastava o afastamento dos cargos. Não era necessário colocar na prisão. Isso eu falo como jurista que sou. Então, nós temos casos como o do Rio de Janeiro em que o governador (Wilson Witzel) foi afastado, mas não precisou prendê-lo. Acho que a medida foi um pouco além do que era necessário.

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