536: O ano em que fomos extintos!

Imagine esta situação: De um dia para o outro, Colheitas foram perdidas e o mundo acordou escuro e frio. , cidades e países foram devastados, pessoas saíam sem rumo em busca de comida e de um lar seguro para morar.

Acrescente ao 536, a pior pandemia dos últimos tempos, uma crise econômica devastadora, revoltas e manifestações em diversos países, com risco de guerras do Mediterrâneo até o Extremo Oriente, golpes de Estado e instabilidade política, migrações forçadas e crise climática, com secas severas generalizadas alternadas por inundações intermitentes.

Para Michael McCormick, arqueólogo especialista em História Medieval e professor da Universidade de Harvard, 536 não foi somente os piores 12 meses para a humanidade, mas “o início de um dos piores períodos para estar vivo”.

Névoa misteriosa 

Naquele ano, uma névoa misteriosa escureceu o céu da Europa, do Oriente Médio e partes da Ásia, tornando impossível distinguir o dia da noite por 18 longos meses. “O Sol emitia sua luz sem brilho, como a Lua durante todo o ano”, escreveu o historiador bizantino Procópio de Cesareia, testemunha ocular daquele momento turbulento.

Procópio de Cesareia /Crédito – Wikimedia Commons

Procópio também registrou  como o Sol parecia estar constantemente em eclipse e que durante esse tempo “os homens não estavam livres da guerra, nem da peste, nem de qualquer outra coisa que levasse à morte”, referindo-se à extensa e dramática Guerra Gótica, um conflito entre o Império Romano do Oriente e o Reino Ostrogótico que devastou a Península Itálica, Dalmácia, Sicília e Sardenha.

Com início em 535, a guerra só terminou em 553, 18 anos depois, deixando o solo estéril naquela regiao do mundo.  E Procópio, que estava junto às tropas romanas como secretário do comandante Flávio Belisário, descreveu os horrores que as populações sofreram e as devastações, como a destruição de Florença e Roma.

Outro testemunho do caos, foi o  senador romano Flávio Magno Aurélio Cassiodoro, que, além de descrever um Sol azul e sem sombras, dando a impressão de que era o fim do mundo. “Ficamos maravilhados por não ver nenhuma sombra de nossos corpos ao meio-dia”, complementou o romano.

Naquele ano, teve inicio “”Pequena Idade do Gelo Antiga”. pois a temperatura caiu drasticamente (entre 1 e 2 graus Celsius), iniciando a década mais fria dos últimos milênios. Com isso, as colheitas da estação quente foram perdidas, matando inúmeras pessoas de fome.

Com isso, ocorreram migrações de povos inteiros, e quando este povo encontrava um local já habitado, a guerra era certa.Foi o que ocorreu com os ávaros, uma população que fugiu da seca iniciada em 536 nas regiões da Mongólia e chegou à Europa Oriental, conquistando a enorme Panónia ( Hungria, Sérvia e Romênia).

Mas as mudanças do clima, carestias e guerras não se limitaram ao Mediterrâneo e à Europa. Os relatos de testemunhas da época, que viveram há dezenas de milhares de quilômetros de distância e não tinham contato entre eles, mostram que 536 não foi um ano fácil em lugar nenhum.

Por exemplo, a Nan Shi (História das Dinastias do Sul), crônica chinesa da época, relatou uma substância amarela semelhante a uma cinza caindo do céu, cuja composição exata do material permanece obscura, mas relatos a descrevem como sujeira ou poeira que pode ser “recolhida em punhados”. Essa substância teria aparecido três vezes no final da década de 530, provocando verões frios e com neve, e arruinando plantações em diversas províncias, como em Qingzhou.

Durante aquele mesmo século, aldeias nas partes oriental e central da Suécia sofreram um declínio tão forte e rápido que muitas cidades foram abandonadas por seus habitantes. A razão para esta desertificação permanece um tanto obscura entre os pesquisadores, mas o “véu de poeira” de 536 e a escassez de comida subsequente certamente influenciaram na decisão das populações escandinavas, que começaram a atacar seus vizinhos na busca por comida.

Como se não fossem suficientes carestias e violências, em 541 chegou a peste bubônica, uma doença que se espalhou muito rápido diante da fome, que debilita os organismos,  e que entrou para a História como a “Peste de Justiniano”, o nome do imperador romano da época.

Aventuras na História · Praga de Justiniano não foi tão drástica quanto se alega, afirmam pesquisadores“Peste de Justiniano” / Crédito – Wikimedia Commons

O primeiro foco da epidemia foi no porto romano de Pelusium, no Egito. Mas, graças aos eficientes meios de comunicação romana, chegou quase imediatamente a todos os cantos do Velho Mundo. No Império Romano do Oriente, o número de vítimas foi particularmente elevado, sendo calculado entre um terço e metade da população total.

“Eles contaram até 300 mil pessoas… e, então, pararam de contar.” Para ter uma ideia do nível da mortalidade, a cidade de Constantinopla, naquele momento, contava com cerca de 500 mil habitantes. Segundo Miguel, ninguém estava imune à pandemia: “primeiro ela atacou a classe pobre da população, depois os mercantes e a nobreza, incluindo o Palácio Imperial”. Conforme diz o arqueólogo McCormick, a catástrofe de tamanha dimensão acelerou o colapso do Império Romano do Oriente.

A devastação

Uma análise detalhada do gelo retirado dos Alpes da Itália, na geleira do Pico Gnifetti, no Monte Rosa, por uma equipe liderada por Mc- Cormick e pelo glaciologista Paul Mayewski, do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade do Maine, pode ter encontrado o responsável por tanta devastação – embora a origem das nuvens misteriosas ainda seja um enigma.

Partículas de poeira, de metal e de elementos aerotransportados, congelados em vários níveis do núcleo de gelo de 72 metros de comprimento, sugerem que a atmosfera na Europa tenha mudado ao longo dos últimos dois milênios por causa de uma erupção vulcânica cataclísmica na Islândia que teria expelido uma coluna monstruosa de cinzas por todo o hemisfério norte no início do ano 536.

Depois, seguiram-se duas outras erupções maciças, em 540 e 547. “Essa época da História sempre foi considerada muito difícil de ser estudada, especialmente pela ausência de documentos ou de claros indícios sobre o ocorrido. Não por acaso, são chamados de ‘Séculos Obscuros’”, explica Alexander More, professor no Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade de Harvard e do Departamento de Saúde Pública da Universidade de Long Island.

“Até o ano passado a gente nem sabia que o responsável de tamanha devastação pudesse ser um vulcão islandês. Havia várias teorias na mesa, sobre vários vulcões e até sobre a possibilidade do impacto de um meteoro com a Terra. Mas, graças a essas pesquisas, identificamos as micropartículas de pó vulcânico, chamadas de tefra vulcânica, e conseguimos entender melhor o que poderia ter ocorrido. Essa foi a primeira vez que estudos históricos se basearam em testes científicos e pesquisas meteorológicas”, aponta.

Quando as erupções são particularmente violentas, como as registradas na época, as partículas atingem a estratosfera e uma nuvem permanente se forma como um verdadeiro manto de névoa. Entre todas as substâncias que tal fenômeno teria espalhado no ar, há o dióxido de enxofre, que, junto com o vapor da água, diminui as temperaturas, pois cria um poderoso filtro contra os raios solares.

“Além de provocar chuvas ácidas que acabam com as colheitas, piorando a situação de carestia”, acrescenta o professor. “Para entender melhor o impacto dessa erupção, vale relembrar os efeitos da erupção de outro vulcão islandês, o Eyjafjallajökull, em 2010. Mesmo com um milênio e meio de distância de 536, a produção de pó vulcânico foi tamanha e tão densa que cobriu o continente europeu inteiro e chegou a bloquear todo o tráfego aéreo do hemisfério norte por meses. Olhando para as fotos satélites dessa última erupção conseguimos imaginar a proporção do desastre que poderia ter ocorrido em 536”, recomenda.

O Eyjafjallajökull /Crédito – Wikimedia Commons

De acordo com os estudos dos pesquisadores de Harvard, essas erupções continuadas geraram pelo menos 120 anos com temperaturas muito abaixo do normal, afetando de forma dramática a agricultura – a base das civilizações antigas – e desorganizando toda a estrutura social.

Os efeitos foram terríveis.“Com menos comida, as pessoas ficam debilitadas e as doenças matam com mais facilidade. Por isso,   é necessário entender a proporção do massacre. O número de vítimas naquela epidemia foi superior a 55% da população, sobretudo em um mundo muito menos povoado do Quehojel.

Nas Américas

O Velho Mundo não foi o único território a sofrer em 536 d.C. Aquele ano que pode ter sido também o pior da História nas Américas. Com base nas cinzas vulcânicas tropicais descobertas nos núcleos de gelo, alguns estudiosos indicam uma erupção do vulcão Ilopango, em El Salvador, em 535 ou 536.

Algo que poderia ter contribuído, inclusive, com a Pequena Idade do Gelo. Outros estudos também mostram como essa erupção pode ter sido seguida por outras. Como a do vulcão El Chichón, no México, por exemplo, que pode ter ocorrido também em 540 – e, provavelmente, outras em seguida.

Essas erupções coincidiram com o período de “hiato” do Império Maia, durante o qual a população e a atividade de construção diminuíram. Os maias, considerados os povos mais avançados das Américas pré-colombianas, parecem ter “congelado” a civilização na época.

“Essa teoria antecede a nossa, mas com certeza é plausível. Sabemos que há períodos na História, mesmo recente, em que ocorrem atividades vulcânicas mais fortes. É o caso, por exemplo, dos vulcões Tambora e Krakatoa, no Pacífico, que também foram tão fortes que provocaram anos sem verão no mundo inteiro, contribuindo evidentemente para convulsões sociais da época”, explica More.

No caso dos maias, a partir dos anos 1930, os arqueólogos começaram a perceber uma estranha lacuna em monumentos maias datados. Por mais de 100 anos, essa civilização interrompeu inexplicavelmente os projetos de construção, aparentemente abandonando algumas áreas até então ocupadas.

Os mistérios e os encantos de Teotihuacán, no México! - Unitur Agência de Viagens e Turismo - Nacional e Interncional Teotihuacán/Crédito – Wikimedia Commons

O declínio de Teotihuacán, a grande cidade da Mesoamérica, também estaria ligado às consequências dessas erupções, que teriam provocado carestias e revoltas por parte da população local.

Entretanto, pouco depois de 536, entrou em colapso repentinamente – assim como toda a civilização ao redor. Hoje, ainda que 2020 não tenha chegado ao fim, fica o dilema. “O ano 536 desencadeou uma cadeia de consequências não muito diferentes do momento histórico atual que vivemos: uma crise climática, uma crise sanitária, uma crise econômica e também uma série de crises políticas e migratórias”, compara More.

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