A trajetória da máscara de proteção: da Peste Negra ao Coronavírus

Há registros do uso de máscaras em diferentes momentos da história. Item frequente no teatro, em rituais religiosos, em sofisticados bailes da elite, a máscara cobre rostos, cria personagens, esconde quem não quer ser identificado e serve como material de proteção há pelo menos cinco séculos.

No Carnaval, é um elemento frequente em muitas fantasias, no cinema e no teatro é determinante para a composição de alguns personagens. Na literatura, pode metaforicamente representar a face que queremos mostrar e aquele lado que pretendemos deixar escondido, como tão bem falava Machado de Assis, pode também ser primordial na construção de personagens marcantes. Quem não se lembra, por exemplo, do “Fantasma de Ópera”, de Gaston Leroux e do rosto destruído que se escondia por trás daquela máscara? “Em cada nota, ele explodia em amor, ciúme, ódio, e sua máscara negra lembrava-me o rosto do mouro de Veneza – ele era o próprio Otelo”. Máscaras que escondem rostos, mas identificam personagens eternizados em nossa memória.

Na vida cotidiana, a máscara pode ser usada por ladrões que não querem ser identificados, por estrelas que querem se manter anônimas, por manifestantes, que se escondem de uma possível repressão e, agora, mais do que nunca, ela cobre o rosto de quem quer se proteger de um vírus que se espalha pelo mundo e leva consigo muitas vidas.

A função protetiva desse item, entretanto, não é algo novo. Com o surto de Peste Negra que dizimou a Europa no século XIV, a máscara se tornou fundamental naquele período. Mas, mesmo antes disso, há registros do uso de máscaras protetoras. No século VI a.C., tumbas persas já traziam imagens de homens e mulheres usando panos que cobriam a boca. Na China do século XIII, Marco Polo encontrou pessoas que cobriam o rosto com lenços de tecido para que seu hálito não alterasse o cheiro e o sabor da comida.

No século XVII, um novo surto de Peste Negra fez com que médicos passassem a usar uma roupa que cobria seu corpo inteiro e uma máscara de bico de pássaro. Naquela época, havia uma teoria segundo a qual as doenças tinham a sua origem em miasmas, ou seja, odores provenientes de matéria orgânica em putrefação ou de água contaminada. Assim, as máscaras impediam que esses odores chegassem aos médicos. Além disso, elas eram preenchidas com ervas e especiarias que protegiam contra envenenamento e seu bico permitia que o ar fosse purificado antes de chegar à boca e ao nariz de quem estava usando a máscara.

No século XVIII, a Revolução Industrial aumentou muito a poluição em Londres. A fumaça se espalhava pela cidade e trazia uma série de problemas de saúde. No inverno, a situação piorava, formando o smog, uma combinação de fumaça e neve, que agravava ainda mais aquele problema. Assim, no final do século XVIII e, principalmente, nas primeiras décadas do século XIX, máscaras anti-poluição passaram a ser utilizadas. Mulheres começaram a prender véus em seus chapéus como uma forma de se protegerem dos poluentes.

A partir de 1918, um surto de gripe espanhola levou os profissionais da área da saúde a usarem máscaras de proteção. Rapidamente, o discurso de que usar máscaras poderia salvar vidas se espalhou e a prática foi se intensificando, chegando a tornar-se obrigatória. Nem todos, porém, aderiram ao uso desse item de proteção e um movimento denominado Liga Anti-Máscara foi criado em São Francisco, em 1919.

Durante o período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, alguns países da Europa distribuíram máscaras de gás para proteger a população. Como gases venenosos haviam sido utilizados durante o conflito anterior e dizimado muitas vidas, alguns governos se anteciparam e tentaram proteger civis e militares dos efeitos dessas substâncias letais.

Nas últimas décadas do século XX, as máscaras passaram a ser usadas por alguns artistas que tentavam não ser reconhecidos por seus fãs. Além disso, famosos como Michael Jackson já faziam uso desse recurso como uma forma de proteção à saúde.

A partir de 2020, com o Coronavírus se espalhando pelo mundo, as máscaras de proteção deixaram de ser um item que despertava curiosidade e se tornaram essenciais e obrigatórias. Ainda vemos vozes contrárias ao seu uso, polêmicas a respeito de que tipo utilizar, indignação diante de quem se recusa a acreditar que elas são necessárias, mas elas se tornaram comuns entre grande parte das pessoas.

O uso de máscaras passou a ser visto como uma forma de proteger a si mesmo e aos outros. Causa espanto que ainda existam pessoas que se recusem a usar esse item que passou a significar o respeito pela vida.

FONTE: iconografiadahistoria.com.br

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