‘CPMI pode fazer o que a CPI da Covid não fez’, diz senador Eduardo Girão; Investigar estados e municípios

O parlamentar é autor de requerimento para se instituir uma nova investigação para apurar desvios de recursos federais ao longo da pandemia

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) tem articulado a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para apurar denúncias de irregularidades no uso de recursos federais repassados a estados e municípios ao longo da pandemia do novo coronavírus.

Ele afirma que já tem 33 assinaturas no Senado (de 27 necessárias), mas que até 40 parlamentares estão dispostos a apoiar a investigação. Na Câmara, é preciso obter a adesão de pelo menos 171 congressistas. A busca pelas assinaturas dos deputados começa na semana que vem.

Segundo o parlamentar, a CPI da Covid do Senado desviou seu foco originário, sendo usada como palanque político para vários integrantes do colegiado. “Isso está consolidado quando vejo três presidenciáveis saindo de dentro da comissão”, afirmou Girão em entrevista a O Antagonista.

Leia os principais trechos da entrevista:

O senhor disse que já obteve o número mínimo de apoiamentos no Senado. Mas e na Câmara? Essa CPMI vai sair do papel?

Nós conseguimos já 33 assinaturas até agora. Acredito que esse número vai aumentar. Na semana que vem, eu já vou levar esse requerimento para a Câmara dos Deputados. Os parlamentares já estão mobilizados. Essa CPMI tem o objetivo de fazer o que a CPI do Senado não faz, aquilo que ela não quis olhar, porque ela ignorou. A CPI da Covid desrespeitou o requerimento assinado pela maioria dos senadores da Casa, que queriam que se rastreasse corrupção também nos estados e nos municípios. E a gente não viu isso nestes 4 meses e meio de CPI. Então, acho que essa CMI pode fazer justiça, pode focar em algo que a CPI teve oportunidade de focar e não quis.

Mas por qual motivo a CPI não investigou estados e municípios?  

Porque queria ser apenas palanque político eleitoreiro para 2022. E isso está consolidado quando vejo três presidenciáveis saindo de dentro da comissão [Simone Tebet, Alessandro Vieira e Tasso Jereissati], lançando suas pré-candidaturas. Isso pega muito mal. Isso mostra que a CPI foi usada como instrumento político. As pessoas cansaram, saturaram dessa guerra política.

Voltando a falar sobre a articulação na Câmara. Quais os deputados que podem ajudar o senhor a obter assinaturas?

A gente esteve uma vez lá na Câmara, quando a CPI estava ainda com dois meses de funcionamento, e aí o que aconteceu? Os deputados se reuniram e concederam uma entrevista coletiva. Naquela época, eles já defendiam que a Câmara deveria fazer algo. 

Agora, quando conseguimos as assinaturas dos senadores, isso incentivou os deputados. Acho que vamos chegar a 40 assinaturas no Senado. Depois disso, vamos entregar esse material para que eles possam dar sequência a esse trabalho. Eles acreditam que vão conseguir as assinaturas rapidamente. E aí a instalação vai depender do presidente da Câmara. Aí vai depender do [Arthur] Lira (PP-AL). A pressão vai para cima do Lira.

Mas qual é a sua avaliação dos trabalhos da CPI, senador?

O que a gente está vendo é uma blindagem, explícita, desses bilhões de reais que foram enviados para estados e municípios. As mais de 100 operações da PF realizadas ao longo da pandemia mostraram que há muitas irregularidades. Inclusive, a CPI aprovou há mais de dois meses requerimento para trazer o ministro da CGU, Wagner Rosário, que pode tanto esclarecer as negociações em torno da Covaxin como também ele pode esclarecer as mais de 60 operações da CGU mostrando os prejuízos milionários ao longo da pandemia.

A sociedade cansou de acompanhar essa CPI porque viu uma má vontade, até uma blindagem à corrupção. Especialmente no que temos visto sobre o Consórcio Nordeste. O Consórcio Nordeste é um símbolo de corrupção ao longo da pandemia. É algo escancarado.

E em relação ao relatório de Renan Calheiros? Qual a sua expectativa?

A CPI já começou errada porque tem um relator com conflito de interesses flagrante. Tem um filho que é governador. E ali você já percebe que virou uma questão de vingança. E não se pode levar isso para o lado pessoal. Existe uma cisão muito clara entre o senador Renan e o presidente da República. É claro isso. O relatório do senador Renan parece que estava pronto antes mesmo de começar a CPI. Ele deu declarações na grande imprensa afirmando quem era culpado e quem era inocente.

Então, muitos membros da CPI também chegaram a falar a mesma coisa. Isso vai tirando, vai derretendo a credibilidade do colegiado. E a população viu ao longo da CPI um show de agressividade, de desrespeito, de indução de respostas, de ameaças de prisão, de quebras de sigilo, de perseguição implacável a quem defende ideias conservadoras, de vazamento de dados sigilosos… Um horror de abuso de autoridade que houve nessa CPI. As pessoas cansaram, saturaram e perceberam qual era o jogo.

O senhor falou de uso político da CPI. O senador Eduardo Girão vai aproveitar o palco da CPI para se lançar candidato ao governo do Ceará?

Algumas pessoas chegaram a insinuar que eu tinha interesse político. Mas vocês estão vendo que eu não sou candidato ao governo do estado do Ceará. Tanto que tem pré-candidato ao governo que eu estou apoiando. Eu trabalho com desapego. Eu respeito muito esse momento. Esse não é o momento para se falar de eleições de 2022. É momento de trabalhar para diminuir o desemprego e para diminuir a fome. Tem gente ainda morrendo por coronavírus. É até uma insensibilidade se falar em 2022. Eu não me sinto confortável [de usar a CPI com palanque]. Respeito os colegas que fazem isso, mas eu não julgo. Mas do meu ponto de vista não penso que isso seja saudável.

O Antagonista

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