O que está acontecendo no Brasil?

Por Tiago Lucero

Essa pergunta não é retórica, nem exagerada: o que está acontecendo no Brasil? Que país é esse onde réus confessos de corrupção bilionária estão soltos, rindo, ironizando, ocupando espaços de poder e influência — enquanto um humorista é condenado a 8 anos e 6 meses de prisão por fazer piadas num show?

Sim, você leu certo. Léo Lins, comediante conhecido por seu humor ácido e controverso, foi condenado a uma pena maior que a de muitos assassinos e estupradores no país. O crime? Palavras. Frases ditas num palco, gravadas e publicadas em 2022. Enquanto isso, José Dirceu — condenado por corrupção passiva, operador central do esquema do mensalão — aparece em show, rindo e dizendo: “o mensaleiro nunca foi embora”. Não foi mesmo. Está aí. De volta. Solto. Absolvido politicamente. Absolvido judicialmente. Aplaudido.

A inversão de valores é tão grotesca que escapa à lógica, à moral, ao senso comum mais básico. A Justiça Federal acaba de ordenar a devolução de R$ 15 milhões a Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, envolvido em confissões explícitas de corrupção e delações premiadas. Tudo isso acontece no mesmo país onde bilhões foram comprovadamente desviados da Petrobras em conluio com empreiteiras que admitiram os crimes e firmaram acordos de leniência — todos hoje anulados, revertidos, relativizados. Réus confessos voltam à cena como se nada tivesse acontecido. A impunidade virou regra. E mais do que regra: virou deboche.

A Lava Jato, com todos os seus erros, desmontou o maior esquema de corrupção da história do Ocidente. Isso não é retórica: foi tratado como tal em cortes internacionais. Hoje, tudo está desfeito. Não porque os crimes desapareceram. Mas porque as penas foram tecnicamente anuladas. A narrativa é essa: as provas eram boas, os crimes existiram, mas o julgamento foi feito em Curitiba e não em Brasília. O problema foi o CEP.

Enquanto isso, Lula — o presidente descondenado — governa o país com ares de consagração histórica. Nenhuma sombra institucional. Nenhum freio. Ao contrário: ele é amparado por um Supremo Tribunal Federal que atua não mais como corte constitucional, mas como escudo ideológico e, cada vez mais, como legislador informal. A proposta de controle das redes sociais, prestes a ser imposta “na canetada”, é apenas mais um capítulo dessa aliança cada vez mais explícita entre Executivo e Judiciário. Censura prévia será chamada de “regulação”. Dissidência será rotulada como “desinformação”.

E quando até o crime organizado ganha afagos, a confusão moral se completa. MC Poze, figura que se orgulha em músicas e postagens de vínculos com o tráfico, com vídeos em que favelas inteiras o ovacionam com armas em punho, foi liberado judicialmente — ainda que sua estrutura empresarial seja investigada por lavagem de dinheiro para o Comando Vermelho. O mesmo Estado que reprime o humor dá liberdade a quem promove abertamente o crime.

Estamos, sim, em estado de anomia. Um Estado onde as instituições existem, mas não produzem justiça. Onde o aparato estatal opera — mas a favor de si mesmo, não da sociedade. Onde a lei é elástica para proteger os aliados e implacável com os incômodos. A balança da justiça está cega, mas não por imparcialidade. Está cega por conveniência.

A pergunta que não quer calar não é mais “quem roubou”, “quem mandou matar”, “quem mentiu”. Essas perguntas já foram respondidas. Agora é outra: o que está acontecendo no Brasil? Que tipo de sociedade a gente está se tornando, onde quem diz a verdade ou ri dela vai para a cadeia — e quem a corrompe vira referência?

Não há democracia onde os criminosos dançam e os comediantes são algemados.
Não há república onde a lei é seletiva e a verdade, punida.
E, definitivamente, não há futuro onde a memória da corrupção é reescrita como heroísmo.

Talvez, só talvez, o Brasil precise parar de perguntar “o que está acontecendo?” e começar a perguntar: até quando vamos aceitar isso?

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