FOTO: Chris McLoughlin/Getty Images
O chamado turismo de guerra, prática antes restrita a nichos específicos de viajantes, ganha força como tendência global e já movimenta cifras expressivas. Um estudo divulgado em março pela consultoria internacional Future Market Insights (FMI) estima que o segmento, atualmente avaliado em US$ 530,6 milhões, deve alcançar a marca de US$ 927,1 milhões até 2035. A previsão aponta para um crescimento anual de 5,7% — uma alta acumulada de quase 75% em apenas uma década.
Esse tipo de turismo ganhou notoriedade com a guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022. Ainda em meio ao conflito, a plataforma Visit Ukraine.Today passou a oferecer visitas guiadas às chamadas “Cidades Valentes”, promovendo excursões por regiões atingidas, com o objetivo de mostrar como a população resiste diante da destruição. O interesse internacional surpreendeu até mesmo os organizadores e reforçou a existência de um público atraído pela vivência direta ou simbólica dos cenários de guerra.
Apesar do nome, o turismo de guerra não se limita a zonas de conflito ativo. Trata-se, majoritariamente, de visitas a locais históricos marcados por batalhas e ocupações militares — como campos de batalha, trincheiras preservadas, museus temáticos, memoriais e cemitérios de guerra. Segundo o estudo do FMI, esse movimento está diretamente relacionado ao aumento da demanda por turismo histórico e patrimonial, que busca conectar o visitante a eventos que moldaram o mundo moderno.
Para o professor Luiz Trigo, especialista em turismo e cultura da Universidade de São Paulo (USP), o crescimento desse setor é impulsionado pela constante exposição da guerra na mídia e pelos conflitos geopolíticos em curso. Ele lembra que regiões como o Oriente Médio, a Europa Oriental e mesmo os Estados Unidos — envolvidos em disputas desde o início dos anos 2000 — acabam se tornando polos de interesse histórico e simbólico para turistas.
No entanto, seu colega de universidade, Alexandre Panosso Netto, que também é doutor em turismo, pondera que a correlação entre instabilidade política e o avanço do turismo de guerra ainda carece de evidências concretas. “É uma hipótese plausível, mas não definitiva. Os conflitos em evidência nas notícias certamente despertam curiosidade, mas a maior parte das visitas ocorre em tempos de estabilidade, quando há segurança mínima para deslocamentos”, afirma.
Ambos concordam, no entanto, que o fascínio por esse tipo de turismo se acentua após o fim dos conflitos. “Ruínas, bunkers e campos de batalha se transformam em museus, centros culturais e até instituições voltadas à memória e aos direitos humanos. Tornam-se espaços de reflexão e aprendizado”, destaca Trigo.
Seja por busca de conhecimento, desejo de testemunhar a história ou mesmo por curiosidade mórbida, o fato é que o turismo de guerra deixa de ser um segmento periférico e passa a ocupar lugar relevante na indústria global de viagens — reflexo de um mundo em constante ebulição e de turistas cada vez mais interessados em experiências impactantes e narrativas reais.






