Todo país tem um hino que traduz seus valores, sua identidade e, em última instância, sua alma coletiva. O Brasil, claro, já tem o seu: pomposo, solene, cheio de palavras que a maioria dos torcedores de estádio não entende — mas que rendem belas vaias a qualquer desafinado de plantão. O problema é que o hino oficial fala de “impávido colosso”, “raiado de luz” e “brado retumbante”. Convenhamos: não é exatamente o retrato fiel do país que a gente vive em 2025.
Se quiséssemos um hino que fosse realmente sincero, talvez devêssemos olhar para a década de 80, para uma banda irreverente que sempre disse em alto e bom som o que muitos pensavam em silêncio: o Ultraje a Rigor. E, dentro do repertório deles, há uma pérola que cairia como uma luva para representar o Brasil contemporâneo: “FDP”.
Lançada em 1987, no disco Sexo!!, a música é um retrato cru e debochado de personagens da vida cotidiana que, resumidamente, merecem o adjetivo que dá nome à canção. Roger Moreira e sua turma não tinham papas na língua, e a letra virou um hino informal de desabafo para qualquer brasileiro que precisasse xingar o motorista folgado, o político corrupto ou o chefe abusivo.
Não é preciso aqui reproduzir a letra inteira, mas basta lembrar de alguns versos: Roger descreve situações do dia a dia — sempre com aquele ar de “tô falando mesmo” — e conclui de forma direta, sem cerimônia: “é um FDP”. Simples, honesto, democrático. Uma verdadeira síntese sociológica em três palavras.
Pense comigo: imagine o Brasil inteiro, em eventos oficiais, começando com a guitarra do Ultraje ecoando nos autofalantes. Nada de versos rebuscados: apenas o refrão que todo mundo conhece de cor (e canta com gosto). Talvez até evitasse o vexame de jogadores que ficam mudos na hora do hino — afinal, “FDP” é fácil de decorar.
Ultraje a Rigor, que surgiu em São Paulo no início dos anos 80, sempre foi uma banda de rock que não tinha medo de cutucar. Do sucesso com Inútil e Ciúme até músicas mais pesadas como Filha da P***, eles sempre foram uma espécie de crônica bem-humorada e revoltada do Brasil real. E convenhamos: esse Brasil real não tem nada de “colosso impávido”. Ele tem, sim, muito de “FDP”.
Talvez esteja na hora de fazer a troca oficial. Um hino que represente a verdade nua e crua: com ironia, raiva e um pouco de humor. Porque, se é para cantar o país que temos, nada o descreve melhor do que três letras, um refrão catártico e uma guitarra estridente.
Confere se a letra não é perfeita
Morar nesse país
É como ter a mãe na zona
Você sabe que ela não presta
E ainda assim adora essa gatona
Não que eu tenha nada contra
Profissionais da cama
Mas são os filhos dessa dama
Que você sabe como é que chama
Filha da puta
É tudo filho da puta (2x)
É uma coisa muito feia
E é o que mais tem por aqui
E sendo nós da Pátria filhos
Não tem nem como fugir
E eu não vi nenhum tostão
Da grana toda que ela arrecadou
Na certa foi parar na mão
De algum maldito gigolô
Filha da puta
É tudo filho da puta (4x)
‘Cês me desculpem o palavrão
Eu bem que tentei evitar
Mas não achei outra definição
Que pudesse explicar
Com tanta clareza
Aquilo tudo que a gente sente
A terra é uma beleza
O que estraga é essa gente
Filha da puta






