A mão que balança o berço – o que Toffoli quer exconder

O véu caiu — e por baixo dele está o sistema funcionando perfeitamente

Não é escândalo isolado. Não é coincidência. Não é “narrativa”. É padrão. O que estamos vendo no caso Toffoli–Banco Master–J&F é o retrato acabado de como o poder real opera em Brasília quando ninguém está fingindo pudor. Um resort aqui, um banco ali, um inquérito acolá, uma decisão estratégica no meio — tudo perfeitamente desconectado no discurso oficial e escandalosamente conectado na vida real.

Comecemos pelo óbvio que já não constrange mais ninguém: um resort ligado à família de um ministro do STF acaba, em poucos meses, integralmente nas mãos de um advogado profundamente conectado aos irmãos Batista. Não um advogado qualquer, mas sócio do presidente da Friboi, ligado ao núcleo duro da J&F, atuante em processos bilionários que envolvem BNDES, leniência e interesses diretos julgados… no STF. Se isso não acende todos os alertas republicanos possíveis, nada mais acende.

O detalhe “pitoresco” é que a compra do resort se dá por meio de um fundo administrado pela Reag — justamente uma financeira investigada no escândalo do Banco Master. O mesmo Banco Master cujo inquérito está sob a relatoria de Dias Toffoli. O mesmo Toffoli que, não por acaso, suspendeu uma multa de R$ 10,3 bilhões da J&F em 2023. A narrativa oficial jura que não há relação. A realidade responde com sarcasmo: claro que há.

E como se o roteiro não estivesse carregado o suficiente, entra em cena o vaivém processual do caso Master. Primeiro, Toffoli manda que todo o material apreendido fique lacrado no STF — longe da perícia natural da Polícia Federal. Investigadores alertam para o óbvio: risco de destruição de provas, acesso remoto, perda de dados. A reação vem. A crítica vem. O ministro recua — mas não totalmente. Decide que quem guarda e analisa as provas será a PGR, não a PF. Ou seja: retira da polícia o protagonismo técnico e mantém o controle político do processo.

Quando a PF reage, Toffoli responde com algo ainda mais revelador: acusa a corporação de “falta de empenho”, sugere descumprimento deliberado de ordem judicial e praticamente ameaça responsabilizar os investigadores por qualquer prejuízo à apuração. É a inversão total da lógica institucional. O investigador vira suspeito. O juiz vira gestor da investigação. O sistema de freios e contrapesos vira peça decorativa.

Nesse ambiente, não causa espanto que o presidente do Banco Central apareça correndo para prestar solidariedade à PF — gesto raro, sintomático, quase desesperado. O TCU ronda o BC. O Congresso flerta com uma CPMI. Mas ninguém pisa fundo. O Centrão finge não ver. Ano eleitoral. Muitos telhados de vidro. O sistema prefere o silêncio ao risco de a lama subir demais.

E é aqui que o véu preto faz sentido como metáfora. Ele existe. Ele cobre. Ele disfarça. Mas está escorregando. Cai para o lado. Revela o logotipo lá em cima — o símbolo do poder financeiro, jurídico e político fundido num só bloco. Um bloco que decide quem investiga, quem julga, quem é punido e quem é protegido.

Nada disso prova crime, dirão os cautelosos profissionais da nota de rodapé. Correto. Mas prova algo talvez ainda mais grave: prova a promiscuidade estrutural entre poder, dinheiro e jurisdição. Prova que o STF não é apenas árbitro — é ator. E ator com interesses orbitando perigosamente perto demais de suas decisões.

No Brasil real, ninguém precisa combinar nada em sala fechada. O sistema funciona por sinais, gestos, timing e silêncio. Processos andam ou dormem. Multas caem ou ficam. Provas circulam ou são retidas. Tudo dentro da legalidade formal. Tudo fora do espírito republicano.

O véu está ali para fingir decoro. Mas o cheiro já atravessou o pano. E quando até a Polícia Federal começa a ser tratada como obstáculo, não como instrumento da Justiça, a pergunta deixa de ser “há algo errado?” e passa a ser outra, bem mais incômoda: quem ainda manda investigar neste país?

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