O impeachment de Ibaneis Rocha ainda não começou nos autos, mas já começou na política. E, na prática, é sempre assim que ele nasce: não no plenário, mas na corrosão lenta da autoridade, na perda de controle do medo, na falência do dinheiro como instrumento de poder.
O caso BRB–Banco Master não é apenas um escândalo financeiro. É uma bomba política. Investigações da Polícia Federal indicam que o Banco Master teria vendido cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras consideradas inexistentes ao BRB, com prejuízo estimado em R$ 4 bilhões. Daniel Vorcaro, controlador do banco, afirma ter tratado da operação diretamente com o governador do Distrito Federal. Ibaneis nega. O fato é que o negócio não teria avançado sem força política. E força política, no DF, nunca foi abstrata.
A Câmara Legislativa do DF aprovou a operação. O BRB executou. O governo defendeu. O governador pressionou. O resultado: um rombo histórico em um banco público, impactos sobre o fundo previdenciário dos servidores e uma crise institucional que já ultrapassou o campo técnico. Quando um banco estatal vira palco de apostas temerárias e decisões politicamente dirigidas, a discussão deixa de ser administrativa — passa a ser moral e política.
Durante sete anos, Ibaneis governou com uma fórmula simples: medo e dinheiro. Quem se alinhava, recebia recursos, cargos, emendas, proteção. Quem destoava, recebia o outro lado da equação: isolamento, pressão, máquina pública, constrangimento institucional. A política deixou de ser negociação e virou submissão. Não se construíram alianças; construíram-se dependências.
Esse modelo funciona enquanto o poder é absoluto. Mas todo poder baseado no medo tem um problema estrutural: ele dura apenas enquanto o medo é maior que a oportunidade. Quando o governante enfraquece, os aliados descobrem que nunca foram aliados — eram apenas reféns temporários.
Hoje, Ibaneis está enfraquecido. O BRB sangra. O Iprev projeta déficit bilionário. O governo fala em cortes. O banco renova contratos milionários de patrocínio com o Flamengo. A Polícia Federal avança. O STF observa. A política sente o cheiro.
É nesse momento que as “hienas” entram em cena — não como insulto, mas como metáfora política inevitável. Hienas são inteligentes, estratégicas e oportunistas. Elas não atacam o leão forte. Esperam o leão ferido. A política funciona assim.
Ibaneis nunca cultivou respeito político. Distribuiu recursos ou ameaças. Comprou apoio ou impôs silêncio. Agora, sem dinheiro suficiente e com medo em queda, descobre que não construiu pontes — apenas muros. E muros não seguram impeachment.
O processo formal pode não vir neste primeiro pedido. Talvez não venha no próximo. Mas ele virá. Porque impeachment não é apenas jurídico; é aritmética de poder. Quando o custo de manter um governante supera o custo de derrubá-lo, o sistema reage.
E o custo de Ibaneis começa a ficar alto demais.
Se Daniel Vorcaro aprofundar sua colaboração com investigadores, se novas conexões políticas forem reveladas, se o rombo do BRB continuar se expandindo e se a pressão sobre a Câmara Legislativa crescer, o impeachment deixará de ser hipótese e passará a ser necessidade política.
Ibaneis Rocha ainda é governador. Mas já não é o mesmo leão. E Brasília sabe: quando o leão cai, não são os inimigos que o derrubam — são aqueles que um dia fingiram ser aliados.
O impeachment não começará no plenário. Começará no instante em que o medo deixar de funcionar e o dinheiro deixar de bastar.






