O voto da direita parece ser o que resta à Celina, mas isso não sobrevive aos fatos, e à história
Há um detalhe que a propaganda tenta esconder, mas que insiste em aparecer: ninguém muda de ideologia por iluminação moral — muda por necessidade eleitoral. E o esforço recente de Celina Leão para se vestir de direita, flertar com o bolsonarismo e posar como referência conservadora no Distrito Federal não nasce de convicção. Nasce do vazio.
O pano de fundo é conhecido:a má gestão, decisões temerárias e o maior escândalo financeiro da história do Brasil. O BRB não tropeçou sozinho. O banco foi empurrado para uma negociação mal explicada por pressão política direta do governador Ibaneis Rocha. O Banco Central interveio. O prejuízo estimado gira em torno de R$ 4 bilhões (que no mínimo deve dobrar). Isso não é ruído de oposição — é fato documentado, e Celina Leão não tem como se afastar dessa herança.
A partir daí, o roteiro se repete como farsa mal ensaiada: atraso de salários, discurso de “queda de arrecadação”. Tudo isso desmentido pelos próprios auditores fiscais do DF, que apontaram aumento — e não queda — da arrecadação. O dinheiro existe. O problema é para onde ele foi e por que agora falta.
É nesse cenário de terra devastada que Celina Leão tenta se apresentar como sucessora natural do governo. Mas sucessora de quê, exatamente? Não há legado positivo para reivindicar. Não há política pública estruturante para defender. O que existe é um governo acuado, sob investigação, tentando socializar prejuízos enquanto privatiza responsabilidades.
A sombra do escândalo, sobra discurso. E o discurso escolhido foi o da direita. Melhor dizendo: o simulacro da direita.
Celina passa a se vender como baluarte do bolsonarismo no DF. Não porque sempre foi. Mas porque é o único campo eleitoral que ainda pode lhe oferecer abrigo. O problema é que a biografia não acompanha a fantasia. Seu histórico partidário passa longe de qualquer raiz conservadora. Ela transitou por siglas que orbitam — e derivam — da esquerda brasileira, como o PPS, hoje Cidadania, herdeiro direto do PCB. Isso não é opinião. É histórico partidário.
Mais grave: sua atuação política nunca demonstrou alinhamento real com as pautas da direita. Não houve enfrentamento institucional, não houve defesa consistente de agenda conservadora, não houve entrega concreta. O que há agora são palavras. Muitas palavras. Sempre em ano pré-eleitoral.
Enquanto isso, a máquina de comunicação entra em ação. Blogs locais, páginas “independentes” e colunistas de aluguel — irrigados por verba pública — passam a atacar o adversário mais próximo: José Roberto Arruda. A tentativa é risível: colá-lo à esquerda, ao PT, ao PDT, ao PCdoB. Não resiste a cinco minutos de história política. Arruda pode ter defeitos, mas alinhamento com a esquerda brasileira nunca foi um deles.
Esse ataque revela mais sobre quem ataca do que sobre o alvo. É desespero narrativo. Quando falta obra, inventa-se rótulo para o outro.
A tentativa de blindar Celina do escândalo do BRB segue a mesma lógica. Do ponto de vista jurídico estrito, é verdade: não há assinatura, não há despacho, não há prova direta. Mas política não é cartório. Política é responsabilidade compartilhada. Celina não foi vice decorativa. Não foi figurante. Ela integrou ativamente um governo que criou o ambiente político, institucional e decisório que tornou esse desastre possível.
Dizer “eu não sabia” pode até servir no processo penal. Não serve no julgamento político. Ninguém governa sete anos ao lado de um governador sem herdar os bônus — e, principalmente, os ônus. E o ônus aqui é pesado: rombo bilionário, banco público fragilizado, risco previdenciário, investigações federais e um governo que começa a ruir por dentro.
É justamente por isso que o alinhamento à direita soa falso. Não é identidade — é fuga. Não é convicção — é cálculo. Celina não se torna conservadora porque acredita; se apresenta como tal porque não tem mais nada sólido a oferecer.
No fim, o eleitor não está diante de uma líder que escolheu um campo político. Está diante de uma política que escolheu um rótulo. E rótulos, quando confrontados com fatos, costumam descolar rápido.
A pergunta, portanto, não é se Celina é de direita. A pergunta é mais simples — e mais incômoda:
onde estavam suas convicções quando o governo do qual ela fazia parte empurrou o DF para o maior escândalo financeiro da sua história recente?
Essa pergunta não se resolve com slogan. E nem com bolsonarismo de ocasião.






