Nesse final de semana o Celina decidiu dar dois recados ao mesmo tempo. Um, bem sério, publicado no Diário Oficial na sexta-feira: decreto de contingenciamento de até 25% em contratos, suspensão de reajustes salariais, revisão de gastos com terceirizados, locações, eventos e tudo mais que possa ser cortado. A tesoura veio para tentar tapar um rombo que, segundo o próprio secretário de Economia, já passa dos R$ 4 bilhões — depois de ter sido diagnosticado em R$ 2,7 bilhões há poucas semanas.
O outro recado veio no sábado, em forma de foto sorridente e abraço apertado: Celina Leão, governadora em exercício, recebendo Ibaneis Rocha num almoço regado a carne cara e cerveja gelada, batizado carinhosamente de “Encontro da Gratidão”. Mesa farta, sorrisos largos, união pública depois de quase um mês de suposto distanciamento.
Gratidão pelo quê, exatamente?
A mesma Celina que passou as últimas semanas tentando se dissociar da suposta “herança” de sete anos e meio ao lado de Ibaneis. A mesma que vem falando em “choque de gestão” e em arrumar a casa que, segundo o secretário de Economia, virou uma “máquina descontrolada”. A mesma que, agora, precisa cortar contratos, suspender aumentos prometidos a servidores e apertar o cinto de fornecedores porque a bagunça fiscal — gastos sem lastro, projeções fantasiosas, compromissos assumidos sem cobertura — finalmente explodiu.
Enquanto isso, o rombo só cresce. Descontrole acumulado ao longo de quase oito anos de gestão compartilhada. BRB afundado em escândalos que ainda rendem delações e prisões. Saúde e outras áreas patinando. E o eleitor, que paga a conta, assiste ao espetáculo.
Sério?
No mesmo final de semana em que o GDF oficializa o aperto fiscal, a vice que virou governadora abraça o ex-governador e posa para foto de gratidão. Gratidão por ter deixado as contas no vermelho? Gratidão pela “herança maldita” que ela ajudou a construir? Gratidão por ter participado ativamente de uma gestão que, segundo os números da própria equipe econômica, perdeu completamente o controle?
Olha, dissociação cognitiva é uma coisa impressionante. A pessoa consegue olhar para o rombo de bilhões, para os contratos que agora terão que ser renegociados a faca, para os reajustes que vão ficar no papel, e ainda assim achar que um almoço afetuoso e uma foto abraçada resolvem a narrativa. Ou será puro cinismo? A certeza de que, com curral eleitoral bem cuidado, memória curta do eleitor e a tradicional impunidade brasiliense, dá para fingir que o passado não cola?
Celina quer se apresentar como a nova gestora responsável que chega para consertar o que o outro deixou. Mas no sábado ela apareceu exatamente como sempre foi: parte inseparável daquela mesma gestão. Abraçada. Grata.
O que exatamente o povo do DF tem a agradecer? Pelo rombo que agora exige corte de 25% em tudo? Pela bagunça fiscal que virou contingenciamento de emergência? Pela sensação de que, independentemente de quem assina o decreto, a conta sempre chega para o mesmo lado?
Durmam com isso. Ou acordem e observem: quando quem ajudou a afundar as contas públicas precisa cortar na carne e, no dia seguinte, posa em “almoço da gratidão” com o principal responsável pela herança, não é sinal de choque de gestão. É sinal de quem perdeu o contato com a realidade — ou confia demais na capacidade do eleitor de esquecer quem riu (e se abraçou) enquanto a conta chegava.
O povo pode ter memória curta. Mas dificilmente esquece quem comemorou a bagunça e depois pediu para pagar a conta.







