Vamos fingir, por um instante, que se trata apenas de confusão. Fingir que boa parte da imprensa do Distrito Federal simplesmente não leu o parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet, antes de sair repetindo “inelegível” como um mantra. Fingir que ninguém abriu o PDF, que ninguém fez a conta, que tudo não passa de um ruído inocente. É uma hipótese generosa — talvez até demais.
Porque, quando se vai aos fatos, a história que se conta publicamente simplesmente não se sustenta.
O parecer que “confirma” a inelegibilidade… confirmando exatamente o contrário
O parecer de Gonet foi apresentado em uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta pela antiga Rede Sustentabilidade contra alterações feitas na Lei da Ficha Limpa, aprovadas pelo Congresso e sancionadas em 2025. Até aí, nada de novo.
O problema começa quando esse parecer passa a ser usado como prova de uma suposta inelegibilidade de José Roberto Arruda. Basta ler o texto para perceber o descompasso entre o que está escrito e o que está sendo noticiado.
O procurador-geral sustenta que, mesmo nos casos em que tenham sido impostas sanções mais gravosas, em condenações múltiplas e conexas, a ineligibilidade deve ter prazo máximo de 12 anos, contados a partir da primeira condenação. Não há ressalva escondida, não há malabarismo hermenêutico. Está dito de forma direta.
No caso de Arruda, a primeira condenação ocorreu em 2014. Doze anos depois, o prazo se encerra antes da eleição. A conta é simples, quase constrangedora de tão básica. Ainda assim, a narrativa dominante prefere ignorar o óbvio e afirmar exatamente o oposto.
Um parecer que ainda não é decisão, nem julgamento, nem regra
Outro detalhe que parece ter desaparecido do noticiário: a ação ainda não foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Não há decisão do plenário, não há efeito vinculante, não há mudança na legislação em vigor.
Trata-se de um parecer opinativo da Procuradoria-Geral da República, que pode ou não ser acolhido pelos ministros. Mesmo assim, manchetes são publicadas como se o destino jurídico do ex-governador já estivesse selado, com direito a tom definitivo e ar de sentença transitada em julgado.
É uma pressa curiosa. E seletiva.
A lei que está valendo hoje — e que quase ninguém menciona
Enquanto o debate se perde em especulações, há um fato incômodo que insiste em permanecer de pé: pela lei que está em vigor hoje, Arruda é elegível.
Não há decisão judicial suspendendo seus direitos políticos. Não há norma válida que o impeça de concorrer. Não há sequer um ato administrativo nesse sentido. A insistência em dizer o contrário não é uma divergência interpretativa legítima. É uma negação da realidade jurídica.
Por que o erro nunca acontece para o outro lado
Aqui começa a parte menos ingênua da história. Porque, se fosse apenas erro, ele aconteceria em todas as direções. Às vezes alguém diria que Arruda é elegível por engano. Às vezes haveria dúvida. Às vezes cautela.
Mas não. O erro é sempre no mesmo sentido. Sempre reforçando a mesma tese. Sempre empurrando a mesma conclusão.
A técnica é velha conhecida: repetir uma afirmação falsa com convicção suficiente até que ela se torne verdade social. Não importa que os documentos digam o contrário. O objetivo não é convencer juristas ou ministros do STF. É contaminar o debate público, criar ruído, gerar a sensação de que “talvez ele nem possa concorrer”.
E, quando essa dúvida se instala, o estrago já está feito.
Não é desconhecimento jurídico. É escolha editorial
Não é preciso ser especialista em direito eleitoral para entender o que está em jogo. Basta ler o parecer. Basta saber contar até doze. Basta não confundir desejo político com fato jurídico.
Quando a imprensa ignora tudo isso e insiste na narrativa da inelegibilidade, não estamos mais falando de falha técnica. Estamos falando de opção editorial consciente. De uma escolha por repetir uma versão conveniente, ainda que flagrantemente falsa.
No fim, o que se vê não é jornalismo cumprindo sua função informativa. É uma parte da mídia apostando que, se repetir a mentira vezes suficientes, alguém vai acabar acreditando.
E talvez a aposta nem seja convencer todo mundo. Basta convencer o suficiente.






