A governança zero no BRB de Paulo Henrique e Ibaneis

Quando um banco falha exatamente naquilo que sabe fazer

Há erros administrativos. Há apostas mal calculadas. E há situações em que a explicação técnica simplesmente não fecha. A governança do BRB durante a gestão de Paulo Henrique Costa, sob a tutela política direta do governador Ibaneis Rocha, entra claramente nessa terceira categoria.

Bancos não compram ativos no escuro. Não podem. Não é opção, é regra. O sistema financeiro funciona sobre um princípio simples e brutal: um banco não pode quebrar — pelo menos não sem arrastar uma parte relevante do sistema junto. Por isso, governança, compliance e escrutínio técnico não são burocracia; são mecanismos de autopreservação.

E ainda assim, o BRB avançou na aquisição de ativos oriundos do Banco Master como se estivesse comprando um imóvel na planta, confiando em folder de corretora.

À época, já era notório no mercado — e hoje isso é reforçado por investigações da Polícia Federal e do Banco Central — que a chamada “carteira de ativos” do Banco Master era tudo, menos convencional. Havia de tudo ali: créditos lastreados em negócios improváveis, operações sem garantias reais consistentes, estruturas típicas de quem transformava qualquer coisa disponível em papel negociável. Cemitério, restaurante, ativos ilíquidos, estruturas bizarras aos padrões bancários. Não se trata de moralismo: trata-se de risco bancário elementar.

Bancos brasileiros, por experiência histórica e regulação pesada, são avessos a esse tipo de exposição. Em cenários de inadimplência crescente — como o que se desenhava — a regra é reforçar garantias, reduzir risco, proteger capital. Isso se chama governança. Isso se chama prudência. Isso se chama sobrevivência.

O que se viu foi o oposto.

Esse tipo de “ativo” não aponta apenas para má avaliação de risco. Ele aponta para algo mais grave: uma possível engrenagem de lavagem de dinheiro em escala multibilionária. E quanto mais informações emergem das investigações, mais essa hipótese ganha consistência. Não é uma acusação leviana — é uma leitura lógica do tipo de estrutura financeira que veio à tona.

Diante disso, a pergunta que realmente importa não é retórica, é técnica: como um banco como o BRB deixou isso passar?

Bancos não são repartições analógicas. Eles operam com sistemas sofisticados, modelos matemáticos avançados, inteligência artificial capaz de mapear padrões de fluxo financeiro com precisão cirúrgica. Eles sabem de onde o dinheiro vem, para onde vai, com que frequência, sob quais estruturas jurídicas e com quais garantias. Antes mesmo da assinatura de qualquer contrato, uma operação dessa magnitude passa por camadas sucessivas de análise automatizada e humana.

Além dos sistemas, há pessoas. Técnicos treinados para identificar exatamente esse tipo de distorção. Especialistas em crédito, risco, compliance e prevenção à lavagem de dinheiro. Profissionais cuja função é enxergar o que não está explícito.

E, ainda assim, nada foi visto? Nada foi detectado? Nada acendeu um alerta vermelho capaz de barrar a operação?

Ao longo de quase um ano, alertas públicos foram feitos. Reportagens, análises, questionamentos técnicos, dúvidas explícitas sobre a natureza dos ativos e a viabilidade do negócio. Mesmo assim, o BRB seguiu adiante. Paulo Henrique Costa seguiu adiante. Ibaneis Rocha seguiu adiante.

É aqui que o problema deixa de ser técnico e passa a ser institucional.

Quando um banco falha exatamente naquilo que é sua especialidade — analisar risco, identificar distorções, proteger capital — não se trata mais de erro pontual. Trata-se de falha de governança em nível estrutural, agravada por tutela política que preferiu sustentar a narrativa da viabilidade a enfrentar os fatos.

O caso do BRB não é apenas sobre um negócio malsucedido. É sobre como um banco público, submetido a interesses políticos, pode ser empurrado a ignorar seus próprios freios técnicos. E quando isso acontece, o risco não é apenas financeiro. É sistêmico.

Porque, no fim, bancos não quebram por falta de dados. Quebram quando decidem ignorá-los.

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