Por João Victor Dias de Souza*
A eficiência na gestão pública é, em essência, o que o rapper GOG, nascido em Sobradinho, chamaria de “Matemática na Prática”’. Não se trata apenas de um slogan político, mas antes de tudo, de um exercício de cálculo real para focar o recurso no ponto de maior necessidade. Muita gente olha para a Zona Norte do DF de longe e comete o erro de achar que é tudo a mesma coisa, mas os dados da PDAD 2024 mostram que, mesmo vizinhas, as regiões administrativas do DF funcionam de formas muito diferentes, revelando grandes desigualdades sociais e estruturais entre elas. A análise baseia-se nos microdados e relatórios públicos da PDAD 2024, comparando indicadores de dependência de serviços públicos e perfil racial entre regiões administrativas da Zona Norte do DF.
Enquanto Sobradinho I opera com índices de autonomia privada, onde quase metade dos moradores possui plano de saúde e ensino superior, bastam alguns quilômetros em direção ao Arapoanga ou à Fercal para encontrar uma realidade onde 85% da população depende exclusivamente do orçamento público. Para lidar com essas diferenças, a tomada de decisão precisa ir além da intuição. Devem ser adotadas ferramentas de diagnóstico completas, onde o perfil demográfico e racial deixa de ser uma pauta ideológica para se tornar a bússola indispensável para medir a necessidade de serviços sociais.
As diferenças regionais são reais e dá para calcular, servindo para definir quem depende da ação direta do governo. Ao olharmos os relatórios da PDAD, Sobradinho I surge com um perfil de alta autonomia, onde cerca de 47% dos moradores possuem planos de saúde privados e a estrutura demográfica apresenta a maior concentração de população branca da região. O cenário, contudo, se inverte drasticamente nas vizinhas Arapoanga e Fercal. Nestas localidades, a dependência do Sistema Único de Saúde (SUS) ultrapassa a marca de 85%, correlacionada a uma população onde pretos e pardos compõem a expressiva maioria. Para a administração pública, isso estabelece que a demanda pesada por serviços públicos na Zona Norte tem endereço e perfil definidos. Insistir em um modelo de gestão padronizado, que entrega o mesmo para todos sem considerar que um grupo recorre ao mercado enquanto o outro depende integralmente do orçamento público, resulta em um erro de calibragem que, ironicamente, gera desperdício em áreas nobres e escassez onde o serviço é vital.
A aplicação prática dessa inteligência de dados torna-se ainda mais urgente quando olhamos para Planaltina, o grande polo demográfico da região. Os dados mostram que apenas 24,2% dos moradores possuem plano de saúde privado, o que significa que, para três em cada quatro habitantes, o Estado é o único provedor. Cruzando essa dependência massiva com o perfil racial, onde 59% se autodeclaram pardos, a gestão eficiente não desenha um posto de saúde genérico, mas ela implementa programas preventivos específicos para patologias prevalentes na população negra, como hipertensão e diabetes tipo 2. Ao focalizar a prevenção onde a demografia aponta maior risco e maior dependência pública, o governo deixa de gastar milhões tratando complicações crônicas em hospitais superlotados e passa a investir de forma inteligente na atenção primária. Isso não é militância, mas é blindar o caixa público contra o desperdício decorrente de tratamentos tardios.
A mesma lógica de eficiência se aplica à segurança pública e à educação em Sobradinho II e arredores. A PDAD revela que a evasão escolar e a falta de qualificação profissional atingem de forma desproporcional a juventude negra dessas áreas periféricas. Ignorar esse recorte é tratar a segurança pública apenas como policiamento ostensivo, uma estratégia que custa caro aos cofres públicos e oferece retornos limitados. Uma gestão baseada em dados utiliza a estatística racial para identificar com precisão cirúrgica onde a vulnerabilidade social é crítica, alocando ali escolas de tempo integral e cursos profissionalizantes focados. O custo de manutenção de um jovem em sala de aula é infinitamente inferior ao custo de um detento no sistema prisional. Portanto, mapear quem são esses jovens não serve para segregar, mas para garantir que o investimento preventivo chegue exatamente a quem está na iminência de ser cooptado pela criminalidade, estancando a violência na fonte.
Concluindo, modernizar a gestão da Zona Norte exige superar o debate superficial sobre ideologia e abraçar a ciência de dados. O administrador que utiliza o quesito raça/cor em seus formulários e planejamentos não está fazendo política partidária, mas está refinando seu diagnóstico para gastar melhor. Em um cenário de recursos limitados, tratar desiguais como iguais é a receita para a ineficiência. O contribuinte de Sobradinho, Planaltina, Arapoanga e Fercal merece uma gestão que olhe para a planilha e enxergue a realidade como ela é, usando todas as variáveis disponíveis para entregar mais resultados com menos custo.
*João Victor Dias de Souza é graduando em Licenciatura em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). É pesquisador do Núcleo-Rede de Estudos sobre Desenvolvimento e Democracia na América Latina (DDAL), com foco em relações étnico-raciais, e possui certificação em Uso de Dados Raciais Aplicado às Políticas Públicas pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP).
Referências:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2023-11/incidencia-de-doencas-cronicas-e-50-maior-entre-pretos-que-em-brancosAGÊNCIA BRASIL. Incidência de doenças crônicas é 50% maior entre pretos que em brancos. Brasília: EBC, 17 nov. 2023. Disponível em:. Acesso em: 03 fev. 2026.
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2020/11/4889981-hipertensao-e-diabetes-sao-doencas-mais-frequentes-entre-negros.htmlCORREIO BRAZILIENSE. Hipertensão e diabetes são doenças mais frequentes entre negros. Brasília: Diários Associados, 20 nov. 2020. Disponível em:. Acesso em: 03 fev. 2026.
GOG. Matemática na Prática. In: GOG. Tarja Preta. Brasília: Só Balanço, 2004. 1 CD. Faixa 4.
http://www.ipedf.df.gov.brINSTITUTO DE PESQUISA E ESTATÍSTICA DO DISTRITO FEDERAL (IPEDF). Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) 2024: Arapoanga. Brasília: IPEDF, 2024. Disponível em:. Acesso em: 03 fev. 2026.
http://www.ipedf.df.gov.brINSTITUTO DE PESQUISA E ESTATÍSTICA DO DISTRITO FEDERAL (IPEDF). Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) 2024: Fercal. Brasília: IPEDF, 2024. Disponível em:. Acesso em: 03 fev. 2026.
http://www.ipedf.df.gov.brINSTITUTO DE PESQUISA E ESTATÍSTICA DO DISTRITO FEDERAL (IPEDF). Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) 2024: Planaltina. Brasília: IPEDF, 2024. Disponível em:. Acesso em: 03 fev. 2026.
http://www.ipedf.df.gov.brINSTITUTO DE PESQUISA E ESTATÍSTICA DO DISTRITO FEDERAL (IPEDF). Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) 2024: Sobradinho. Brasília: IPEDF, 2024. Disponível em:. Acesso em: 03 fev. 2026.
http://www.ipedf.df.gov.brINSTITUTO DE PESQUISA E ESTATÍSTICA DO DISTRITO FEDERAL (IPEDF). Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) 2024: Sobradinho II. Brasília: IPEDF, 2024. Disponível em:. Acesso em: 03 fev. 2026.






