Blindagem política: portal ligado ao GDF tenta empurrar o fracasso da saúde para a CLDF

O somatório das emendas parlamentares de R$ 208,1 milhões não fazem nem cóssegas no orçamento de R$7,9 bilhões da Secretaria de Saúde do DF

A tentativa de um portal alinhado ao Governo do Distrito Federal de empurrar para o colo dos deputados distritais a responsabilidade pelo caos na saúde pública já ultrapassou o limite do constrangimento institucional e ingressou, sem disfarces, no terreno da disputa política. O que se apresenta como “análise técnica” é, na prática, uma operação de blindagem do governador e de sua vice, travestida de jornalismo, com o objetivo claro de inverter a hierarquia das responsabilidades públicas e reescrever a narrativa do fracasso.

O expediente é conhecido e recorrente: pinçam-se números de emendas parlamentares — que são *acessórias, marginais e complementares e que, ademais, ainda que louváveis, produzem pouco efeito diante do orçamento multibilionário da saúde* — e tenta-se transformá-los no eixo central do financiamento do setor. Trata-se de uma distorção deliberada. Emendas não estruturam política pública, não substituem planejamento, não comandam contratos, não gerenciam hospitais e, definitivamente, *não governam*. Quem faz tudo isso é o Executivo, que concentra o poder decisório, controla o orçamento e responde pelos resultados — ou pela completa ausência deles.

Apontar que parlamentares como Iolando e Daniel Donizet destinaram R$ 1 milhão cada à saúde, ou que alguns distritais investiram menos de 2% do volume total aplicado no setor, pode até render manchetes ruidosas e manchetes convenientes, mas não altera o dado central: esses valores são irrisórios quando comparados ao montante sob controle direto do GDF. O discurso acusatório serve apenas para fabricar um inimigo político e desviar o foco da incapacidade administrativa que se repete ano após ano.

Os próprios dados oficiais, extraídos do Sisconeep Cidadão e do portal de transparência da Câmara Legislativa do DF, desmontam a narrativa simplista e seletiva. Em 2026, quatro deputados — Paula Belmonte, Joaquim Roriz Neto, Pepa e Daniel Donizet — não destinaram emendas à saúde. É um dado legítimo, público e verificável. O que não é legítimo é usar essa informação como biombo para encobrir atrasos de pagamento, contratos mal executados, falta de insumos, colapso hospitalar e decisões erráticas de uma gestão que prefere terceirizar culpas a assumir responsabilidades.

Mais grave ainda é o efeito colateral dessa estratégia rasteira. Atitudes como essa vêm criando *fissuras evidentes entre o GDF e partidos da própria base aliada*. Ao estimular portais governistas a jogar no colo dos parlamentares a conta da má gestão, o Executivo corrói a relação política que sustenta sua governabilidade. Deputados que ajudaram a aprovar projetos, liberar recursos e dar sustentação política agora passam a ser tratados como culpados oficiais por um desastre que não comandam.

A mensagem subliminar é clara — e tóxica: quando a gestão falha, a culpa é do Legislativo; quando há anúncio, marketing ou inauguração, o mérito é exclusivo do Palácio. Essa lógica não apenas agride a inteligência do cidadão, como expõe o grau de desespero de um governo mais preocupado em proteger sua imagem do que em enfrentar, com seriedade, a crise da saúde pública.

Aliás, é inevitável a pergunta que o portal governista se recusa a fazer: *o problema da saúde do DF é falta de dinheiro ou má gestão?* Com um orçamento que gira em torno de *R$ 7,9 bilhões* para a Saúde, o Governo do Distrito Federal dispõe de recursos, apenas para essa área, quase idênticos a de estados inteiros como Roraima, Acre e Amapá. Diante desse volume de recursos, culpar emendas parlamentares não é apenas desonesto — é uma confissão tácita de incompetência.

No fim das contas, a diferença entre discurso e prática não está nas emendas dos distritais, mas na tentativa desesperada de um governo de usar portais amigos como escudos políticos. A conta não fecha, a narrativa não se sustenta e o desgaste político se aprofunda. Porque, por mais que se tente terceirizar a culpa, *má gestão tem CPF institucional — e ele está no Executivo*.

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