Há uma mentira confortável sendo repetida à exaustão no caso BRB–Banco Master: a de que o prejuízo é “de cerca de R$ 4 bilhões”. Não é. Esse número é apenas a primeira camada do estrago. O rombo real é maior, estrutural e inevitavelmente mais caro. Porque banco público não quebra sozinho — quem paga a conta é o Tesouro do Distrito Federal.
Se o BRB perdeu R$ 4 bilhões, o GDF terá de colocar R$ 4 bilhões em caixa para recompor capital, evitar intervenção e manter o banco de pé. Isso não é mágica contábil. É dinheiro saindo do orçamento do DF. Dinheiro que não vai para saúde, educação, transporte, infraestrutura ou cidades. O prejuízo não é de 4. É de 8.
É simples: perdeu-se R$ 4 bilhões dentro do banco e retiram-se mais R$ 4 bilhões do orçamento público para tapar o buraco. O dinheiro some duas vezes. Primeiro na operação fraudulenta ou temerária. Depois no resgate estatal. Isso sem contar o detalhe que ninguém quer discutir: a recomposição pode exigir operação de crédito, ou seja, endividamento — com juros, correção e custo financeiro ao longo de anos.
Portanto, independentemente do valor final que a Polícia Federal, o Banco Central ou o STF venham a cravar, a conta sempre será maior. O prejuízo cresce no tempo. Cresce no juro. Cresce na dívida. Cresce na compressão de políticas públicas. O BRB não sangra sozinho. Ele sangra junto com Brasília.
E o buraco não para aí. Existe um prejuízo indireto ainda mais perverso: o IPREV, o fundo de previdência dos servidores do DF, fortemente exposto a ações do BRB. Com a derrocada do banco, esses papéis despencaram. A rentabilidade virou prejuízo. O fundo entrou em déficit. E adivinhe quem cobre? Fonte 100. Caixa único. O mesmo GDF.
Ou seja, o governo pode ser obrigado a evacuar o IPREV com dinheiro do orçamento corrente. Mais uma vez, o rombo se multiplica. O erro bancário vira crise previdenciária. A aposta mal feita vira risco de aposentadoria. O “negócio estratégico” vira um problema de décadas.
Enquanto isso, surgem bilhetes apreendidos pela PF dizendo que “se não comprar o Master, ele quebra”. Surgem depoimentos contraditórios. Surgem terrenos comprados por R$ 22 milhões e revendidos por R$ 118 milhões ao banco público. Surgem reuniões, pressões e pressa. O que não surge é uma explicação minimamente crível.
E é nesse cenário que o governo tenta vender a ideia de que “ninguém sabia”, “ninguém viu”, “ninguém participou”. Ibaneis Rocha aparece citado em depoimento à Polícia Federal. A cúpula do BRB se contradiz. Alertas internos existiam. Mesmo assim, a operação avançou. Avançou porque havia força política empurrando.
Celina Leão pode até não ter participado da negociação. Pode até não ter sido consultada. Pode até não ter assinado nada. Mas isso não muda o fato essencial: ela fez parte do governo que criou o maior prejuízo da história do BRB e um dos maiores desastres fiscais já impostos ao DF.
Blindagem jurídica não apaga responsabilidade política. Trackings não anulam matemática. Marketing não resolve déficit. No fim, sobra o que sempre sobra: a conta. E essa conta não será paga por banqueiro, nem por dirigente afastado, nem por nota oficial. Será paga pelo cidadão de Brasília. Duas vezes. Ou mais.
O rombo não é um número. É um processo. E ele ainda está longe de terminar.






