Quando foi que o BRB decidiu queimar uma fortuna em publicidade com o Flamengo?
Segundo levantamentos públicos, só entre 2020 e 2023 o banco transferiu cerca de R$ 153,18 milhões ao clube carioca em contratos de patrocínio. Com renovações, aditivos e projeções já firmadas, o valor total da parceria deve ultrapassar os R$ 200 milhões até 2025, com previsão de mais R$ 50 milhões apenas nos próximos ciclos contratuais. É dinheiro público — ou quase público — escorrendo sem pudor, sem debate e sem constrangimento institucional.
A primeira pergunta é elementar: pra quê? Que retorno concreto isso trouxe ao BRB e ao Distrito Federal? Quantas contas abertas? Quantos empregos gerados aqui? Qual impacto mensurável na economia local? Até agora, o que existe é exposição de marca em rede nacional e euforia de arquibancada digital. Um negócio caríssimo para inflar marketing e vaidade política disfarçados de “estratégia”.
O contraste beira o escárnio. O próprio GDF fala em “apertar o cinto”, atrasa pagamentos, anuncia cortes e tenta convencer a população de que a arrecadação caiu — versão já desmentida por auditores fiscais do DF. Ainda assim, o banco oficial do governo mantém um patrocínio milionário, contínuo e crescente, como se estivesse nadando em estabilidade financeira.
Pior: isso acontece no exato momento em que o BRB está no centro de uma crise grave, envolvido até o pescoço no caso Banco Master, com questionamentos sérios sobre governança, solvência e decisões temerárias. Num cenário desses, gastar mais de R$ 200 milhões com futebol não é ousadia. É irresponsabilidade institucional.
Mas há um segundo escândalo, ainda mais revelador. Enquanto o BRB banca o Flamengo, o futebol do Distrito Federal agoniza. O Candangão virou um campeonato invisível, jogado em estádios vazios, sem patrocínio relevante, sem estrutura e sem qualquer projeto consistente de fortalecimento. Nossos clubes simplesmente desapareceram da agenda pública.
É quase ofensivo. Um banco que leva “Brasília” no nome ignora deliberadamente os times da própria cidade. Gama, Brasiliense, Ceilândia, Sobradinho, Taguatinga — todos tratados como irrelevantes. Não rendem manchete nacional? Não dão foto com camisa rubro-negra? Então não interessam.
O Candangão hoje parece campeonato de várzea, não por culpa dos clubes ou atletas, mas porque o poder público virou as costas. Não há investimento, não há plano, não há visão. Só abandono. E isso diz muito sobre o projeto de cidade que está sendo executado.
É impossível ignorar o componente político dessa escolha. O Flamengo não é apenas um clube popular; é, convenientemente, o time do coração do governador. Coincidência? Talvez. Mas coincidências que custam mais de R$ 200 milhões costumam ser difíceis de engolir.
Enquanto isso, o discurso oficial fala em responsabilidade fiscal, cortes e sacrifícios. Só não explica por que o sacrifício é sempre do servidor, do transporte, da saúde e da população — nunca do marketing luxuoso, nunca da vitrine política, nunca do agrado simbólico.
O BRB poderia ter sido protagonista de um projeto sério de fortalecimento do esporte local, de identidade regional e de desenvolvimento do futebol candango. Preferiu ser patrocinador premium de um espetáculo alheio, distante e eleitoralmente conveniente.
No fim, sobra uma sensação amarga: Brasília paga a conta, o Rio recebe o dinheiro, o governador posa de torcedor e o futebol local segue enterrado. Isso não é gestão. É escolha. E das piores.






