Celina, Ibaneis… não foi o BRB que foi vítima, foi o Distrito Federal

 

Quando a vice-governadora Celina Leão afirma que o Banco de Brasília “foi vítima de uma fraude nacional”, ela desloca o centro do debate. A narrativa apresentada sugere que a instituição foi surpreendida por agentes externos e que o Governo do Distrito Federal atua apenas para conter danos e preservar um patrimônio coletivo. Mas essa versão ignora um ponto essencial: a decisão de adquirir cerca de R$ 12 bilhões em ativos do Banco Master não foi um evento externo. Foi uma decisão interna de gestão.

O banco não foi alvo passivo de um golpe aleatório. Ele realizou operações estruturadas, assumiu risco e comprometeu capital próprio. A investigação conduzida pela Polícia Federal, sob relatoria de Dias Toffoli no STF, não trata o episódio como um acidente fortuito, mas como possível gestão temerária ou fraudulenta vinculada às decisões adotadas no processo de aquisição.

Classificar o episódio como “fraude nacional” pode ser eficiente politicamente, mas juridicamente a questão é outra: quem autorizou? Quem avaliou risco? Quais controles internos falharam? Em bancos públicos, risco mal calculado não é abstração — ele se transforma em impacto direto sobre o patrimônio coletivo.

A segunda camada da declaração é ainda mais delicada. Ao defender projeto de lei que autoriza o uso de imóveis públicos como garantia para eventual operação financeira, Celina Leão sustenta que não se trata de retirar recursos do governo, mas apenas de oferecer patrimônio como aval para um possível empréstimo. Tecnicamente, é verdade: garantia não é desembolso imediato. Politicamente, porém, significa colocar ativos do Distrito Federal como colchão de segurança para cobrir uma crise gerada por decisões do próprio banco.

Em termos práticos, isso representa a socialização do risco. Se o banco conseguir se reequilibrar, o patrimônio não é acionado. Se a recuperação falhar, os imóveis podem ser executados. Ou seja, o ativo público passa a responder por um passivo decorrente de uma estratégia que agora se tenta apresentar como vitimização.

Há também a questão da coerência narrativa. Se o banco é sólido, forte e movimenta bilhões por ano na economia local, por que precisa de um fundo garantidor de até R$ 2 bilhões lastreado em patrimônio público? Se a instituição foi apenas enganada por terceiros, por que o impacto financeiro é suficientemente relevante para exigir blindagem patrimonial do governo?

A retórica da preservação institucional é compreensível. Bancos vivem de confiança. Mas confiança não se constrói deslocando responsabilidade. A distinção entre “separar as pessoas que erraram da instituição” é válida apenas quando os erros são individuais e não estruturais. Se a falha foi de governança, de avaliação de risco ou de estratégia institucional, o problema não é externo — é sistêmico.

Outro ponto relevante é o timing político. Em ano pré-eleitoral, qualquer crise financeira em banco público tende a contaminar o ambiente político. A tentativa de enquadrar o episódio como ataque externo reduz o desgaste imediato, mas não elimina a necessidade de explicar por que o banco assumiu tamanho volume de exposição em uma única operação.

Os R$ 400 milhões bloqueados judicialmente representam um esforço legítimo de recuperação de ativos. Mas, diante de um passivo potencial estimado em múltiplos bilhões, trata-se de fração do problema. O bloqueio é reação; a questão central permanece sendo a decisão que originou a exposição.

No fim, a pergunta não é se o BRB deve ser preservado. Ele é, de fato, uma instituição estratégica para o Distrito Federal. A pergunta é outra: preservar significa transferir o risco para o patrimônio público ou reconstruir a governança que permitiu que o risco fosse assumido?

Se houve fraude, ela precisa ser apurada e punida. Mas governança falha não é fraude externa — é responsabilidade interna. E quando o controlador do banco é o próprio governo, responsabilidade política não pode ser convertida apenas em narrativa de vitimização.

Porque, se o patrimônio do GDF for usado para tapar o buraco, a vítima não será o banco.

Será o Distrito Federal.

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