Não se trata de uma exoneração qualquer. Trata-se de um recado. Quando uma jornalista com 15 anos de serviços prestados à Câmara Legislativa do DF é afastada logo após a publicação de uma reportagem crítica sobre a saúde pública, o nome disso não é gestão: é censura por procuração.
O poder público tenta vender a demissão como um ato administrativo banal, mas ninguém é ingênuo a esse ponto. A coincidência é grosseira demais para ser acidental. A mensagem é cristalina: quem se aproxima demais da verdade vira alvo. Quem toca em tema sensível paga o preço.
O que está em jogo aqui não é apenas o cargo de Renatinha Poli. É a construção deliberada de um clima de medo dentro da CLDF e do serviço público do DF. Servidores monitorados, comissionados acuados, jornalistas sob vigilância informal. Um ambiente onde pensar, escrever ou se relacionar com quem escreve virou risco funcional.
A denúncia de que a decisão teria partido do governador Ibaneis Rocha, com aval de Celina Leão, expõe algo ainda mais grave: a ingerência direta do Executivo sobre outro Poder. Não é só censura à imprensa — é pressão política institucionalizada.
Quando o governo começa a punir profissionais por vínculos familiares ou por matérias publicadas fora do ambiente oficial, o Estado cruza uma linha perigosa. A lógica deixa de ser técnica e passa a ser inquisitorial. Não se avalia desempenho; avalia-se lealdade. Não se mede competência; mede-se silêncio.
Há também um componente incômodo que ninguém deveria ignorar: o recorte de gênero. O ambiente hostil às mulheres jornalistas, historicamente mais expostas a ataques, ganha contornos ainda mais tóxicos quando o poder decide “dar exemplo” justamente com uma profissional experiente e respeitada.
O mais perverso desse tipo de censura é que ela raramente precisa ser explícita. Basta uma exoneração exemplar para que dezenas se autocensurem. O efeito é difuso, mas devastador: menos reportagens críticas, menos denúncias, menos incômodo ao poder. Democracia por inanição.
Em qualquer democracia minimamente funcional, esse episódio exigiria explicações públicas, apuração independente e reação institucional. Aqui, o risco é virar estatística silenciosa, engolida pela rotina de abusos normalizados.
Quando governos passam a tratar jornalismo crítico como ameaça e servidores como peças descartáveis, o problema já não é administrativo — é civilizatório. A censura não começa com tanques; começa com exonerações seletivas e silêncios constrangidos.
Hoje foi uma jornalista. Amanhã, qualquer um que ouse perguntar demais. E quando perguntar vira crime informal, a resposta já está dada: não é mais sobre gestão — é sobre poder sem freio.






