Pela segunda vez no ano, presidente do BC terá que explicar estouro da meta inflacionária; desgaste se soma à turbulência diplomática e econômica causada pelas tarifas dos EUA
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, deve divulgar nesta quinta-feira (10) uma nova carta pública ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, após o IPCA de junho ultrapassar o teto da meta de inflação pelo sexto mês consecutivo. Será a segunda vez em seu mandato que Galípolo precisa recorrer a esse instrumento de prestação de contas — e o cenário não é nada animador.
A meta contínua de inflação no Brasil é de 3%, com tolerância de até 4,5%. O estouro do teto exige, por regra, uma carta explicando as causas, medidas tomadas e previsões para reconduzir a inflação ao intervalo permitido. Dados internos do BC revelam que 58,8% dos itens do índice estão acima do teto, e 45,1% estão acima do dobro da meta, mesmo com a Selic em 15% ao ano — maior nível desde 2006.
“Incomodado”, mas sem afrouxamento
Durante audiência na Câmara dos Deputados, Galípolo admitiu incômodo com o cenário: “Tive que escrever em janeiro, e vou ter que escrever agora, provavelmente no mês que vem de novo”, disse, reiterando que o BC não “vai se desviar um milímetro” da meta.
O presidente da autoridade monetária negou qualquer possibilidade de flexibilização: “A meta é 3%, não é uma sugestão. O BC não vai encontrar o meio do caminho.”
Crise interna, pressão externa
A necessidade de emitir nova carta coincide com o agravamento da tensão econômica com os Estados Unidos. O tarifaço de 50% imposto por Donald Trump sobre todos os produtos brasileiros — com justificativas políticas e ataques ao STF — pegou o governo de surpresa, e expõe o Brasil a uma tempestade econômica e diplomática.
Enquanto o governo federal mapeia retaliações via Lei de Reciprocidade Econômica, incluindo a suspensão de patentes e tributação de multinacionais, o Banco Central enfrenta o desafio de controlar uma inflação persistente que não responde nem mesmo à alta histórica dos juros.
Mais do que uma formalidade
A carta de Galípolo, embora obrigatória, tem peso político significativo. Mostra que a autoridade monetária perdeu o controle sobre a inflação em meio a um ambiente global cada vez mais hostil e um governo que tenta, ao mesmo tempo, conter os danos externos e manter sua base popular.
O conteúdo do documento deve incluir:
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Diagnóstico das causas do estouro da meta
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Explicações sobre a alta da Selic
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Projeções para o retorno ao intervalo permitido
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Indicação de medidas futuras, caso necessárias
Em meio a ameaças comerciais vindas de Washington, fuga de investidores e descontrole inflacionário, o governo Lula enfrenta agora um dilema inédito: como proteger a economia brasileira de todos os lados — inclusive de si mesma.
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