O governador Ibaneis Rocha, que construiu parte de sua imagem como liderança de oposição ao governo federal, caminha para uma situação paradoxal: depender justamente do governo Luiz Inácio Lula da Silva para salvar o BRB do maior abalo institucional de sua história recente.
O envolvimento do banco público do Distrito Federal no escândalo das fraudes do Banco Master deixou de ser ruído contábil. Tornou-se crise de confiança. E crise bancária não se resolve com discurso político ou nota oficial otimista; resolve-se com capital. Capital robusto. Capital crível.
Até agora, o que se viu foi um plano tímido apresentado à Câmara Legislativa, uma tentativa de capitalização que parece mais desenhada para ganhar tempo do que para enfrentar o problema de frente. O Banco Central concedeu prazo para a implementação de um plano consistente, mas o mercado não opera em calendário político. O tempo que conta é o da confiança, e confiança não tolera hesitação prolongada.
O impasse é evidente. Uma capitalização robusta com apoio federal exigiria reconhecer publicamente a dimensão do rombo gerado pelas operações associadas ao Master — transação que, desde o início, foi vista com desconfiança por parte relevante do sistema financeiro. Admitir a necessidade de socorro implicaria reconhecer erro de gestão. E reconhecer erro, às vésperas de um projeto eleitoral ao Senado, tem custo político alto.
O problema é que adiar a solução também tem custo. E ele é cumulativo.
Os grandes bancos privados, que já haviam adquirido carteiras de crédito do BRB em momentos anteriores, mostram resistência em assumir ativos vinculados ao episódio Master. A disposição de compra diminui quando o risco reputacional aumenta, e o preço tende a ser puxado para baixo. Já os bancos públicos federais, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, não têm sinalização de autorização do Ministério da Fazenda para operar em apoio direto ao BRB neste momento. Em política econômica, a ausência de decisão também é decisão. E aumenta o poder de barganha de quem pode autorizar depois.
A alternativa de um empréstimo com garantia do Tesouro Nacional esbarra em outro dado desconfortável: a situação fiscal do próprio Distrito Federal, pressionada por uma política de expansão de despesas ao longo dos últimos anos. Socorro federal exige ambiente fiscal minimamente sólido ou, no mínimo, disposição política para negociar condições duras. Nenhum desses elementos é trivial.
O quadro revela uma contradição central. O discurso de oposição ao Planalto sempre serviu como ativo eleitoral local. Mas, diante de uma crise sistêmica, o mesmo governo distrital pode ser compelido a estender o pires exatamente àquele que criticava. A política, que antes funcionava como instrumento de diferenciação, passa a ser obstáculo para a solução técnica mais rápida.
O Banco Central fala em 180 dias para implementação de um plano de capitalização crível. No papel, parece prazo confortável. Na prática, instituições financeiras vivem de percepção diária. Cada semana de indefinição corrói credibilidade, encarece soluções e reduz alternativas. Quanto mais o tempo avança sem uma proposta robusta, maior o risco de que a solução venha com condições mais severas e menor margem de protagonismo local.
No fim, a crise do BRB deixou de ser apenas bancária. Tornou-se teste de liderança. Ou o governador assume o custo político de reconhecer a dimensão do problema e negocia uma saída estrutural, ainda que isso implique recorrer ao governo federal, ou continuará tentando administrar o desgaste no varejo enquanto o atacado se deteriora. Em crises financeiras, a demora raramente é neutra. Ela quase sempre agrava a conta — e transfere o poder de decisão para quem ainda tem caixa e caneta.






