Observação: tudo aqui é conjectura, mas dado o encadeiamento dos fatos, cabe a reflexão
Vamos ligar os pontos, porque eles estão todos aí — espalhados, mas nada aleatórios. Em menos de 30 dias, o Governo do Distrito Federal atrasou salários, discursou sobre “queda de arrecadação”, foi desmentido pelos próprios auditores fiscais e, por fim, anunciou ajuda financeira para salvar o BRB. Isso não é desorganização. Isso é roteiro. E, como todo roteiro mal escrito, começa tentando enganar o público.
Primeiro ato: o atraso no pagamento dos servidores. Cinco dias depois da data habitual. Para o governo, isso é detalhe administrativo. Para quem entende de finanças públicas, isso é gestão de caixa no osso. Cada dia de atraso significa dinheiro parado rendendo, aplicação girando, fôlego artificial sendo criado. Não é novidade, é expediente velho. O mesmo expediente usado quando o caixa não fecha — ou quando alguém precisa ganhar tempo.
Segundo ato: o governador aparece dizendo que “a arrecadação caiu” e que será preciso apertar o cinto. Discurso clássico de crise fabricada. Só tem um problema: os auditores fiscais do DF desmentiram publicamente. Não houve queda. Houve aumento de arrecadação. Ou seja, não falta dinheiro entrando. O que falta é explicação para onde ele está indo.
Terceiro ato: no meio desse teatro fiscal, explode o escândalo do BRB e do Banco Master. A compra de ativos que, na prática, se revelam podres, inexistentes ou simplesmente sem lastro. O Banco Central olha a operação e enxerga o óbvio: um banco insolvente sendo “resgatado” por outro banco público. O prejuízo estimado? Algo em torno de R$ 4 bilhões. Dinheiro que não evapora. Dinheiro que alguém paga.
E aí chegamos ao quarto ato — o mais obsceno. O GDF anuncia ajuda financeira para o BRB. Ajuda pública. Dinheiro do contribuinte. Justamente no momento em que salários atrasam, fornecedores ficam sem receber, hospitais acumulam pendências e o governo diz que precisa “economizar”. Economizar onde? No servidor. No credor. No serviço público. Nunca no erro de gestão.
Desde dezembro, o padrão se repete: o GDF “economiza” deixando de pagar. Não paga fornecedores, não honra compromissos, segura repasses. O caixa melhora artificialmente. O discurso de crise é lançado. E, no momento seguinte, surge a necessidade urgente de salvar o banco estatal de um buraco cavado por decisões temerárias — para dizer o mínimo.
A pergunta que se impõe não é retórica, é lógica: o Distrito Federal está sendo usado para tapar o rombo do BRB? O atraso de salários, o discurso falso de queda de arrecadação e o socorro financeiro não parecem eventos isolados. Parecem partes de uma mesma engrenagem. Uma engrenagem que socializa o prejuízo e privatiza a irresponsabilidade.
É legítimo socorrer um banco público? Em tese, sim. Mas não quando o buraco nasce de uma operação mal explicada, mal cheirada e pior executada. Não quando o preço é empurrado para servidores, fornecedores, hospitais e serviços essenciais. Isso não é política pública — é transferência de culpa com dinheiro alheio.
Claro, alguém dirá que isso é “conjectura”. É mesmo. Mas é uma conjectura baseada em fatos objetivos, datas, números e decisões encadeadas. O governo pode até negar. O que não pode é fingir que ninguém percebeu. Porque percebeu. E está tudo documentado.
Se o dinheiro existe, se a arrecadação aumentou, se o aperto não é real, então sobra apenas uma conclusão incômoda: o problema não está no caixa — está na gestão. E quando gestão ruim encontra banco público, quem paga a conta nunca é quem assinou o contrato. É sempre a população.
No fim, o DF inteiro está sendo chamada a pagar o pato para cobrir um erro que não cometeu. E quando o governo começa a atrasar salário para salvar banco, não estamos mais falando de ajuste fiscal. Estamos falando de prioridades morais. E essas, claramente, estão no lugar errado.






