Não se trata de excesso retórico. Não se trata de oposição apaixonada. Trata-se de um fato político elementar: é plenamente possível que nada aconteça no campo judicial no caso BRB–Banco Master. Mas isso não significa que nada acontecerá.
A Justiça brasileira atravessa uma crise de credibilidade que não pode mais ser ignorada. Tribunais superiores operam sob permanente suspeita pública, investigações envolvendo cortes são recorrentes, decisões contraditórias se acumulam. O Superior Tribunal de Justiça já foi alvo de apurações por suposta venda de decisões. O Supremo Tribunal Federal tornou-se protagonista político. Não é teoria — é noticiário.
Nesse ambiente, é ingênuo acreditar que todos os desdobramentos do caso BRB resultarão necessariamente em responsabilizações penais exemplares. Pode não resultar. Pode prescrever. Pode se diluir. Pode terminar em acordos, arquivamentos ou tecnicalidades jurídicas.
Mas há um julgamento que não depende de relator nem de voto de ministro: o julgamento eleitoral.
O que está em discussão não é apenas uma operação financeira malsucedida. É uma sucessão de decisões temerárias envolvendo a aquisição de ativos do Banco Master, hoje sob investigação da Polícia Federal. É um banco público que assumiu exposição bilionária em ativos altamente questionáveis. É um rombo que pode ultrapassar bilhões e que, inevitavelmente, recairá sobre o Tesouro do Distrito Federal.
Banco público não quebra sozinho. Se faltar capital, o GDF injeta. Se houver déficit, o orçamento cobre. Se houver impacto no IPREV, o contribuinte recompõe. O prejuízo nunca fica no CNPJ. Ele migra para o CPF.
E aqui entra a dimensão política.
Ibaneis Rocha não é um espectador técnico desse processo. O BRB é banco estatal. A presidência foi de sua confiança. O conselho teve indicações políticas. As decisões estratégicas ocorreram sob sua gestão. Blindagem jurídica não apaga responsabilidade política.
Celina Leão pode alegar que não assinou contratos. Pode alegar que não participou da negociação. Mas integrou o governo que patrocinou o maior escândalo financeiro já associado a uma instituição pública do Distrito Federal. E campanha baseada em viadutos que levam de um congestionamento a outro não substitui explicação sobre bilhões expostos a risco.
O discurso moralista de direita não sobreviverá ao confronto com a matemática. Conservadorismo fiscal não combina com operação bilionária cercada de dúvidas. Não há retórica ideológica capaz de neutralizar balanço contábil.
O eleitor brasileiro tem memória curta. Tem histórico de tolerância com escândalos. Isso é verdade. Mas também reage quando sente o bolso, quando percebe desorganização administrativa, quando identifica arrogância no trato com dinheiro público.
Pode ser que tribunais não condenem. Pode ser que processos se arrastem. Pode ser que ninguém seja formalmente responsabilizado.
Mas a urna não exige prova penal. Exige confiança.
E confiança, quando quebrada, não se recompõe com marketing.
A Justiça pode até falhar.
Mas as urnas — essas — costumam ser implacáveis.






