Corte seletivo, cinismo integral, desespero real
O governador reaparece — depois de mais férias do que a média do contribuinte suporta financiar — agradecendo à “interina” e anunciando “ajustes”. O roteiro é conhecido: sorriso ensaiado, discurso de responsabilidade e a velha promessa de que saúde e educação estão a salvo. A plateia aplaude; a conta, não fecha.
Quando ele diz que poderá fazer cortes no “investimento”, o subtexto é outro: o corte virá do “investimento”. Ora, no mundo real, investimento público é saúde, educação, transporte, segurança e infraestrutura. Chamar isso de “não urgente” é um malabarismo semântico para justificar a tesoura onde dói menos politicamente — e mais na vida concreta.
O mais revelador não é o anúncio do corte; é o descaro com que ele convive com o noticiário diário de um escândalo financeiro que cresce como avalanche. Enquanto surgem novos indícios sobre a compra temerária de ativos podres, sobre uma engenharia que ameaça virar o maior rombo bancário da história recente, o governo pede “colaboração” e fala em “equilíbrio”.
Equilíbrio para quem? Não para o servidor que recebe atrasado. Não para o credor que espera. Não para o cidadão que vê transporte abandonado e hospitais operando no limite. Equilíbrio, aqui, parece significar socializar o prejuízo depois de privatizar o risco.
É curioso — e sintomático — que em mais de sete anos de mandato o governador nunca tenha reunido o secretariado para um pronunciamento desse tipo. O gesto não é liderança; é pânico. É a coreografia de quem tenta convencer o público de que “está tudo sob controle” quando o prédio já cheira a fumaça.
A versão oficial de queda de arrecadação ruiu. Foi desmentida pelos próprios auditores fiscais do DF. Não caiu a arrecadação; cresceu a despesa — e cresceu por decisão política. Decisão, aliás, que teve digital do próprio governador na aprovação e defesa da compra de um banco em liquidação máxima pelo BRB.
Agora, a tentativa é reescrever a história: transformar uma crise criada no gabinete em “ajuste técnico”, um erro estratégico em “gestão responsável”. É o truque clássico: quem causou o incêndio aparece de capacete dizendo que vai economizar água.
Enquanto isso, os gastos que nunca entram no radar do corte seguem intocados. Camarotes VIP, eventos milionários, marketing institucional — esses não são “urgentes”, mas também não são “investimento” quando convém. A tesoura escolhe alvo; o discurso escolhe eufemismo.
O pronunciamento soa como confissão involuntária: “eu estava de férias, a casa bagunçou, voltei para arrumar”. Só esqueceu de dizer quem bagunçou antes de viajar — e quem assinou as autorizações que nos trouxeram até aqui.
No Buriti, o clima não é de planejamento; é de contenção de danos. Quando o governo precisa garantir, em voz alta, que está tudo bem, normalmente é porque não está. E quando o corte é seletivo, o cinismo costuma ser integral.






