Presidente dos EUA firma acordos bilaterais e evita diálogo com o bloco, mirando diretamente o Brasil com tarifa de 50%
O governo de Donald Trump oficializou para 1º de agosto a entrada em vigor de tarifas comerciais recíprocas com países considerados estratégicos. No entanto, o presidente norte-americano tem evitado negociar com blocos multilaterais — especialmente o Brics — e coloca o Brasil sob risco de isolamento econômico e diplomático, caso não avance nas tratativas bilaterais com Washington.
Desde o anúncio das novas tarifas, os Estados Unidos já firmaram acordos bilaterais com seis países e um acordo preliminar com a China. O Brasil, por sua vez, permanece sem diálogo formal, o que levanta preocupações no Itamaraty e entre especialistas em comércio internacional.
Acordos firmados até agora:
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Reino Unido: redução de tarifas em carros, aço, etanol e carne; tarifa base de 10%
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China: tarifas recíprocas temporárias com estrutura condicionada; tarifa base de 30%
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Vietnã: EUA reduzem tarifas a 20%, e o Vietnã isenta produtos americanos
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Indonésia: tarifa base de 19% com abertura do mercado norte-americano
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Filipinas: tarifa zero para produtos dos EUA, 19% sobre produtos filipinos
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Japão: tarifas recíprocas caem de 25% para 15%
A estratégia de Trump, segundo o economista Maurício F. Bento, da Hayek Global College, é desacreditar o multilateralismo e reduzir a influência do Brics — grupo que o presidente americano vê como uma ameaça à hegemonia dos EUA e ao dólar.
“O Brasil perde força ao insistir em uma defesa coletiva, enquanto seus pares negociam individualmente com os americanos”, afirma Bento. “Se ficar por último, pode ser alvo de sanções mais duras, usadas como exemplo para intimidar outros países.”
Apesar dos alertas, o governo brasileiro ainda não conseguiu abrir canal direto de negociação com Washington, enquanto a pressão aumenta. O professor destaca ainda que os interesses dos EUA no Brasil vão além do comércio:
“Há desconfiança quanto ao Pix, que enfraquece os sistemas bancários tradicionais, e sobre o tratamento dado às big techs, vistos como contrários aos interesses norte-americanos.”
Política comercial agressiva
Para Bento, Trump obteve vitórias de curto prazo ao proteger a indústria dos EUA com tarifas entre 10% e 30%, em troca de concessões comerciais significativas dos países parceiros. No entanto, alerta para riscos no longo prazo:
“Esse modelo mina a confiança dos países no comércio com os EUA, pois a imprevisibilidade política pode inviabilizar investimentos estrangeiros e comprometer acordos futuros.”
Em julho, Trump divulgou as cartas enviadas aos líderes dos países atingidos pelas tarifas. A lista inclui: Indonésia, Filipinas, União Europeia, Brunei, Japão, Malásia, Coreia do Sul, Cazaquistão, Tunísia, Moldávia, Líbia, Argélia, África do Sul, México, Iraque, Sri Lanka, Bósnia, Canadá, Sérvia, Bangladesh, Tailândia, Camboja, Mianmar, Laos — e o Brasil.
Enquanto os demais buscam saídas diplomáticas, o Brasil permanece no alvo — sem acordo, sem proteção e sem aliados.





