“Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado.”

Cármen Lúcia e o fascismo espiritual: tudo no Estado, nada contra o Estado

Por Tiago Lucero

“Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado.”

Essa é a frase que sintetiza toda a doutrina fascista formulada por Benito Mussolini em 1932. Nela, o indivíduo deixa de existir enquanto entidade autônoma. A sociedade civil é reduzida a engrenagem. O Estado se torna absoluto — e o cidadão, irrelevante.

Nesta sexta-feira, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, ofereceu ao Brasil a sua versão tropical e togada dessa doutrina:

“A liberdade de expressão não é um valor absoluto numa democracia.”

Mas foi além. Durante o julgamento que pode entregar às Big Techs a missão de censurar seus próprios usuários sob pena de sanção, ela soltou a frase que escancara de vez o espírito fascista que permeia sua visão de mundo — e a de seus pares no STF:

“Censura é proibida constitucionalmente, é proibida eticamente, é proibida moralmente, é proibida eu diria até espiritualmente. MAS não [se] pode, também, permitir que nós estejamos numa ágora [praça pública] em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos. Soberano é o Brasil, soberano é o Direito brasileiro.”

Essa frase é um divisor de águas. Porque ela nega, em essência, a ideia fundadora da democracia liberal: de que a soberania emana do povo. Para Cármen Lúcia, o soberano não é o indivíduo, não é o cidadão, não é o eleitor — é o Estado. É o “direito brasileiro”, interpretado, claro, por ela e seus colegas de toga. É a completa inversão da lógica democrática. É o culto à autoridade.

A ministra não apenas relativiza a liberdade de expressão — um dos pilares da civilização ocidental — como se coloca, junto a seus colegas, acima da vontade popular. O STF, indicado por arranjos políticos escusos, com ministros que jamais receberam um único voto, agora legisla, executa, julga e interpreta conforme seus próprios caprichos. É um Estado dentro do Estado. Uma casta de deuses autoproclamados.

Mas isso vai além do autoritarismo judicial. É um fascismo espiritual. Uma doutrina silenciosa, disfarçada de tecnocracia, onde o Estado se torna entidade sagrada e os cidadãos, servos inconscientes. Onde o togado se vê como oráculo. Onde o povo é tratado como ameaça — e a liberdade, como um erro que precisa ser corrigido por quem “sabe mais”.

Essa crença nasce nas raízes podres do patrimonialismo brasileiro: a fidalguia colonial, a burocracia absolutista, a elite togada que se crê ungida para conduzir os ignorantes. A ministra não vê 213 milhões de indivíduos — vê 213 milhões de súditos. E ela, no trono.

É a mesma corte que libertou um criminoso condenado — Lula — para que voltasse ao poder. Um ex-presidiário solto por questões processuais, agora blindado por esse mesmo tribunal. Um presidente mafioso sustentado por um tribunal que reescreve a Constituição à luz de seus próprios interesses.

Como dizia Mussolini:

“A imprensa é um tambor a serviço do regime. Não há espaço para dúvida quando se serve à pátria.”

Hoje, a imprensa brasileira — bancadas por verbas estatais e concessões públicas — já serve ao regime. O STF quer agora silenciar o único espaço livre que resta: as redes sociais. E querem terceirizar essa censura. A verdade passará a ser definida por executivos de empresas americanas, sob pressão de ministros brasileiros. É o totalitarismo sob contrato.

Mussolini dizia também:

“O parlamento é um órgão morto. A Itália precisa de uma autoridade forte e indiscutível.”

Aqui, o Congresso tenta ainda respirar. Tentou barrar o aumento de um imposto injusto — o IOF. E Lula, o presidente solto por esse tribunal, cogita recorrer ao mesmo STF para anular a decisão dos representantes do povo. O Executivo governa por medida provisória. O Judiciário manda no Legislativo. E o cidadão? Que cale a boca.

Aonde isso vai parar?

A fala de Cármen Lúcia, tomada com a seriedade que exige, revela exatamente onde isso vai parar: o Brasil caminha para se tornar, de fato e de direito, uma ditadura. Não a ditadura militar que muitos temem, mas uma ditadura togada, revestida de jurisprudência, travestida de civilidade. Onde a censura será legal, a repressão será moral, e a liberdade será apenas uma lembrança.

Quando um tribunal acredita que pode decidir o que é verdade, o que é opinião, o que pode ou não ser dito, ele já não é um guardião da Constituição — é o novo Leviatã.

E como todo Leviatã, só ruirá quando aqueles que ainda respiram liberdade tiverem coragem de dizer: basta.

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