Vender o CENTRAD não é ajuste. É prova de má gestão.

Quando Ibaneis Rocha anunciou, em 13 de dezembro de 2025, a intenção de vender o CENTRAD — Centro de Administração do Distrito Federal — por cerca de R$ 600 milhões, a medida foi apresentada como racionalização administrativa. Não é. É a evidência de um problema que começou muito antes da placa de “vende-se”. O prédio custou aproximadamente R$ 1 bilhão aos cofres públicos e foi concebido com uma finalidade objetiva: concentrar órgãos do GDF e reduzir drasticamente a dependência de aluguéis. Colocá-lo à venda por pouco mais da metade do valor investido não traduz eficiência; traduz liquidação forçada.

A coincidência temporal é eloquente. O anúncio ocorre às vésperas da consolidação do escândalo envolvendo as operações do BRB e seus reflexos nas contas públicas. Decisões dessa magnitude não são improvisadas. Elas decorrem de diagnósticos internos. E quando um governo começa a se desfazer de patrimônio estruturante, a pergunta inevitável é – já se sabia o que estava por vir?

Ao justificar a venda, Ibaneis atacou o ex-governador José Roberto Arruda, chamando a obra de “ilusão megalomaníaca”. O argumento tem apelo retórico, mas não resiste à cronologia. O atual governador está há sete anos no comando do Distrito Federal. Se o prédio se deteriorou, se ficou subutilizado, se perdeu valor, isso ocorreu sob sua própria administração. Patrimônio público não se degrada por ideologia; degrada-se por ausência de gestão. Transformar abandono em crítica ao passado é inverter a responsabilidade presente. É puro cinismo eleitoreiro.

A dimensão financeira é ainda mais incômoda. O governo Ibaneis gastou, em média, cerca de R$ 500 milhões por ano com aluguéis. O CENTRAD foi concebido justamente para reduzir essa despesa. Mesmo que a economia anual fosse da ordem de R$ 400 milhões, só a título de exemplo, em sete anos isso representaria aproximadamente R$ 2,8 bilhões poupados — valor superior à metade do que hoje se aponta como necessário para enfrentar o rombo do BRB fruto direto da atual gestão. O prédio que poderia ter gerado economia estrutural bilionária agora é tratado como ativo descartável para recompor caixa

Há ainda um dado estrutural ignorado. Durante a pandemia, ficou demonstrado que grande parte da atividade-meio do GDF funciona adequadamente em regime de teletrabalho. A experiência revelou potencial de redução permanente de custos com imóveis, limpeza, segurança, manutenção, energia e infraestrutura – seriam bilhões em economia possivelmente. Ainda assim, cerca de 90 mil servidores retornaram ao modelo presencial de forma ampla, preservando a pressão por contratos e espaços físicos. Um modelo híbrido, aliado à ocupação estratégica do CENTRAD, poderia ter praticamente eliminado a dependência de boa parte dos aluguéis atuais. A opção foi manter a estrutura onerosa e, depois, apresentar o prédio como inviável.

O padrão político se repete. Quando há desequilíbrio, a narrativa aponta para heranças de governos anteriores — Ibaneis fez isso não só uma vez, também não só apontou Arruda, como Rollemberg – a culpa nunca é dele. O que raramente aparece é o reconhecimento de que sete anos de gestão são tempo suficiente para consolidar prioridades, corrigir rumos e preservar ativos estratégicos.

Vender o CENTRAD abaixo do custo de construção para enfrentar dificuldades financeiras geradas no próprio período de governo não é modernização. É evidência dupla de incapacidade administrativa: não se soube preservar o patrimônio, nem utilizá-lo para gerar a economia que justificou sua existência. Quando um governo começa a desfazer-se de sua própria infraestrutura para tapar buracos, o problema já não está no prédio. Está na gestão que o deixou chegar a esse ponto.

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