Em entrevista à CNN analista lembra que vínculos econômicos e tecnológicos são profundos demais para uma ruptura — e que o Brasil não tem alternativa real a Washington
A relação política entre Brasil e Estados Unidos vive a pior crise diplomática em dois séculos. Tarifas unilaterais, sanções contra ministros do STF e a tensão em torno do julgamento de Jair Bolsonaro levaram o diálogo oficial a um impasse raramente visto.
Mas, como lembra Alberto Pfeifer, coordenador-geral do grupo de Análise de Estratégia Internacional em Defesa, Segurança e Inteligência da USP, o afastamento é mais de cúpula do que de povo. “São países irmanados, que compartilham valores, princípios, democracia, economia de mercado, liberdade de expressão”, afirma.
Na prática, essa ligação é visível nas plataformas digitais, na indústria e, sobretudo, na defesa. Pfeifer aponta que o Brasil não está pronto para trocar tecnologia americana por sistemas chineses ou russos — e, mesmo com o peso da China como produtora industrial, nossos padrões seguem sendo ocidentais. No setor militar, a dependência é quase total: mais de 90% dos equipamentos, pessoal e capital têm origem nos EUA.
Ou seja, qualquer ruptura teria custo altíssimo. A “separação” no plano político não encontra eco na realidade estratégica. Para Pfeifer, é justamente essa vulnerabilidade que deveria empurrar Brasília para a cautela — e para lembrar que seu lugar, historicamente, é no continente americano, alinhado à democracia e à economia de mercado.
No meio da maior tensão em 200 anos, a lição é clara: o Brasil pode até reclamar de Washington, mas não pode se dar ao luxo de romper com ele.






