A blindagem de Celina Leão não vai funcionar

Celina não assinou, mas sentou à mesa do estrago

Celina Leão diz que não sabia. Diz que não foi consultada. Diz que soube pela imprensa. Do ponto de vista estritamente formal, jurídico, documental, nada até agora desmente essa versão. Não há assinatura, não há despacho, não há reunião comprovada, não há vantagem pessoal identificada. Se o critério for o do processo penal clássico, ela está fora do raio direto da explosão.

Mas política não funciona como inquérito policial. Política funciona como responsabilidade compartilhada. E é aqui que a blindagem começa a rachar.

Celina Leão não é uma espectadora ocasional do governo Ibaneis Rocha. Não foi uma vice decorativa, não foi uma figura lateral, não foi um ornamento institucional. Ela participou ativamente de um governo que hoje carrega o maior rombo da história do BRB, um prejuízo bilionário que compromete banco público, previdência de servidores e a credibilidade financeira do DF.

Dizer “eu não participei da negociação” pode até ser verdade — e pode até ser suficiente para afastar imputação criminal. Mas não afasta o fato político central: ela fez parte do governo que criou as condições, o ambiente e a lógica de poder que tornaram esse negócio possível.

O escândalo do Banco Master não brotou do nada. Ele nasce de uma cultura de decisões concentradas, de desprezo por alertas técnicos, de uso político do BRB como instrumento de projeto de poder. E essa cultura não era clandestina. Ela era visível, reiterada e defendida publicamente pelo núcleo do governo.

Ibaneis Rocha fez pressão política explícita para que o negócio avançasse. A CLDF aprovou. O banco foi empurrado para uma operação temerária mesmo com sinais vermelhos piscando. Nesse cenário, a vice-governadora não era uma desconhecida: era parte do governo que governava.

A estratégia da pré-campanha de Celina é clara e compreensível: isolá-la do BRB, afastá-la de Paulo Henrique Costa, tratá-la como alguém que “discordava internamente”. Pode funcionar no marketing. Pode funcionar nos trackings. Pode funcionar no curto prazo.

Mas existe um problema insolúvel: ninguém governa sete anos ao lado de um governador sem herdar os ônus estruturais do governo. Não se herda só a foto, o palanque e a máquina. Herdam-se também os desastres.

E o desastre aqui não é pequeno. Estamos falando de bilhões, de risco previdenciário, de investigações federais, de um governador citado em depoimento à PF, de um banco público exposto e de um governo que começa a ruir por dentro. Isso não cola na sola do sapato de Celina por maldade — cola por lógica política.

Celina pode até convencer que não sabia. O que ela não consegue convencer é que não fazia parte do governo que sabia de tudo o que precisava ser sabido para impedir isso — e não impediu.

No fim das contas, a pergunta não é se Celina Leão participou da fraude. A pergunta é mais simples, mais cruel e mais política: ela estava onde quando o maior rombo da história do BRB estava sendo construído? E a resposta, goste-se ou não, é inequívoca: estava no governo. E isso pesa.

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