Na semana passada, vazaram documentos internos indicando que o GDF estuda suspender, já em 2026, o pagamento da licença-prêmio convertida em dinheiro para servidores do Executivo. Estamos falando de menos de 60 mil servidores e de um benefício previsto em lei, mas tratado agora como luxo fiscal. O argumento oficial é o de sempre: “falta de recursos”, “necessidade de prudência”, “cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal”.
Só que os números parecem contar outra história.
O próprio Relatório de Impacto Orçamentário aponta que o gasto com pessoal do Executivo está em 41,9% da Receita Corrente Líquida. Bem abaixo do limite prudencial e muito distante do teto de 46,55% previsto na LRF. Ou seja: não há estouro, não há colapso, não há emergência fiscal objetiva. Há espaço. O aperto não é técnico — é seletivo.
E é aqui que a desconfiança deixa de ser paranoia e passa a ser raciocínio lógico.
Desde dezembro, o padrão se repete com precisão cirúrgica. Salários atrasam. Fornecedores ficam sem receber. Repasses são segurados. O governo fala em queda de arrecadação — e é publicamente desmentido pelos próprios auditores fiscais, que atestam aumento de receita. O caixa melhora artificialmente. E, logo depois, surge a “necessidade” de socorrer o BRB.
Não é coincidência. É método.
O escândalo da compra de ativos podres do Banco Master pelo BRB não só expôs um prejuízo bilionário, como criou um problema político e financeiro que precisa ser administrado. O Banco Central interveio. O rombo estimado já passou da casa dos R$ 4 bilhões — e ninguém mais trata isso como número definitivo. Dinheiro desse tamanho não some. Ele precisa sair de algum lugar.
E tudo indica que está saindo do lugar mais fácil: do bolso do servidor e da prestação de serviços públicos.
A suspensão da licença-prêmio em dinheiro não é uma medida isolada. É um sinal. Um sinal de que o governo está disposto a usar benefícios legais, salários e compromissos básicos como variável de ajuste para recompor caixa e ganhar fôlego político diante de um escândalo que ainda nem mostrou todo o seu tamanho.
Enquanto isso, o discurso oficial insiste na encenação. Fala-se em “ajuste”, em “responsabilidade”, em “prioridades”. Mas curiosamente, as prioridades nunca incluem rever decisões que causaram o buraco, nem responsabilizar quem empurrou o BRB para uma operação temerária. O ajuste sempre cai para baixo.
O mais revelador é que tudo isso acontece sem pressão real da LRF. Não há violação iminente. Não há extrapolação. O que há é medo. Medo do impacto fiscal completo do combo BRB + Banco Master. Medo de investigações. Medo de CPI. Medo de que a conta final seja maior do que o governo admite hoje.
Nesse contexto, o servidor vira colchão financeiro. A licença-prêmio vira moeda de troca. O atraso salarial vira “gestão de fluxo”. E o discurso de crise vira cortina de fumaça.
Não por acaso, esse aperto coincide com o momento em que o governo tenta se reorganizar politicamente para 2026. E aqui entra a camada mais cínica da história: o mesmo governo que aperta o servidor é o que tenta vender sua sucessora como representante da direita, do bolsonarismo e da austeridade moral.
É uma narrativa conveniente. Afinal, nada soa mais “responsável” do que cortar benefício de servidor enquanto se tenta esconder um rombo bilionário num banco público.
Mas o enredo não fecha. Porque quem olha os números percebe: o problema não está na folha, nem na previdência, nem na licença-prêmio. O problema está em decisões políticas mal explicadas, em operações financeiras temerárias e em um governo que agora precisa escolher quem paga a conta.
E, como sempre, a escolha é previsível.
Se o governo estivesse realmente no limite fiscal, o debate seria outro. Mas não está. O que existe é um caixa pressionado por um erro gigantesco — e uma tentativa de empurrar esse custo para quem não assinou contrato nenhum.
No fim, o aperto no cinto não é sobre responsabilidade fiscal. É sobre prioridades morais. E quando um governo prefere atrasar salário, suspender benefício legal e precarizar serviço público para administrar o estrago de um banco, fica claro que o problema não é falta de dinheiro.
É falta de coragem para assumir o erro — e sobra de disposição para transferi-lo.






