O Governo do Distrito Federal inaugura, nesta terça-feira (3), a segunda unidade do Na Hora Empresarial. O nome é pomposo, a foto vai sair bonita, o discurso vem afinado. O problema é que, na prática, não há nada de novo ali — apenas uma boa dose de confusão conceitual e maquiagem administrativa.
O Na Hora nasceu com uma ideia simples e correta: reunir, em um mesmo espaço físico, vários órgãos públicos para atendimento direto ao cidadão. Um modelo de balcão único, com servidores, sistemas integrados e resolução imediata de demandas. Você chega com um problema e sai, se não resolvido, ao menos encaminhado. Daí o nome: NA HORA.
Funcionou. Tanto que virou política pública. E tanto que sobreviveu.
O que não evoluiu foi o governo que deveria tê-lo fortalecido.
Criado como projeto piloto em 2002, o Na Hora avançou lentamente, mas com coerência. Até estacionar. Nos sete anos do governo Ibaneis Rocha, o que se viu não foi expansão do atendimento ao cidadão, mas a fragmentação da ideia original. Em vez de ampliar unidades, horários, serviços e capilaridade, o governo optou por criar versões temáticas: uma unidade empresarial aqui, outra restrita a perícias do INSS ali.
Resultado: nenhuma ampliação real do atendimento ao cidadão comum.
Pior: essa opção contraria frontalmente a própria lógica que levou à criação da subsecretaria que o abriga: Subsecretaria de Modernização do Atendimento IMEDIATO ao Cidadão. Substituiu-se uma política transversal por nichos específicos, desmontando o espírito do Na Hora sem dizer isso em voz alta.
Hoje, o que se mantém funcionando — e isso precisa ser dito — é por esforço quase heroico dos servidores que estão na ponta. A demanda aumentou. A cidade cresceu. Os problemas se multiplicaram. E o modelo ficou congelado no tempo.
Congelado, inclusive, naquilo que talvez explique tudo: ninguém quer trabalhar ali.
Não é força de expressão. Há anos a Secretaria de Justiça — à qual a Subsecretaria de Modernização do Atendimento IMEDIATO ao Cidadão está vinculada — faz chamamentos públicos para atrair servidores às unidades do Na Hora. O sucesso é pífio. O motivo é óbvio.
O servidor que aceita ir para o Na Hora vira para-raios do Estado. É ele quem encara o cidadão revoltado com a multa mal aplicada, o imposto mal lançado, a conta de luz absurda, a água cortada, a fila do Detran, o Procon ineficiente, a falha do sistema, o erro que vem de cima. Ele representa o governo — sem ter poder algum para consertar o governo.
E qual é a contrapartida?
Uma gratificação chamada GAP — Gratificação de Atendimento ao Público. O nome sugere algo relevante. O valor desmente. R$ 600 brutos. Fixados em 2009, no governo Arruda. Nunca mais recomposto. Nunca mais corrigido. Nunca mais lembrado.
Para efeito de comparação: quando essa gratificação foi fixada, o salário mínimo era de R$ 465. Se houvesse, ao menos, correção pela mesma lógica, hoje a GAP passaria dos R$ 2 mil. Mas não passou. Ficou onde estava. Envelheceu mal. E perdeu completamente o sentido econômico.
O recado é claro: esse governo gosta do Na Hora como vitrine, não como política pública. Gosta da inauguração, não da rotina. Da foto, não do servidor. Do discurso de modernização, não da modernização real.
Inaugurar uma unidade empresarial enquanto o atendimento geral segue estagnado não é avanço — é desvio de foco. É atender a um público específico enquanto se ignora o colapso silencioso do atendimento cotidiano. É chamar de inovação aquilo que, no fundo, é só rearranjo administrativo.
O Na Hora não precisa de sobrenome. Precisa de investimento, valorização de pessoal, ampliação de unidades, revisão de gratificações e, sobretudo, respeito à ideia original.
Sem isso, cada inauguração vira apenas mais um capítulo do teatro administrativo: muita placa, muito discurso e pouca entrega real. O cidadão continua esperando. O servidor continua desvalorizado. E o governo continua fingindo que modernizou o que apenas deixou envelhecer.






