Não é ilegal. Não é crime. Não é proibido.
Mas é profundamente revelador.
No auge do escândalo envolvendo as operações do BRB com o Banco Master, o governador Ibaneis Rocha escolheu para sua defesa no STJ um dos advogados mais simbólicos do establishment jurídico-político de Brasília: Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.
Kakay não é um advogado comum. É figura central nos tribunais superiores, integrante do grupo Prerrogativas, historicamente alinhado ao campo político de Lula. Foi defensor de ex-presidentes, ministros, governadores, empreiteiras investigadas na Lava Jato. Ele mesmo se declara eleitor do PT em diversas eleições.
Nada disso é ilegal. Mas tudo isso é político.
Ibaneis construiu parte de sua narrativa pública ancorado no discurso da direita, no enfrentamento ao lulismo, na retórica de ordem e moralidade. Agora, diante de uma representação no Superior Tribunal de Justiça, recorre a um dos advogados mais associados ao círculo jurídico que gravita em torno do próprio sistema que sua base eleitoral costuma atacar.
Não há incoerência jurídica. Há incoerência política.
Kakay afirmou que a representação tem “conotação política”. Pode ter. Partidos como PT, PDT, PCdoB e Rede assinaram o pedido. Mas o ponto central não é esse. O ponto é que, ao primeiro sinal de turbulência institucional, o discurso ideológico evapora e entra em cena o pragmatismo absoluto: o melhor trânsito possível dentro das cortes superiores.
É aqui que a narrativa desmorona.
Se o sistema é aparelhado, como dizem seus aliados mais radicais, por que confiar justamente em um dos advogados mais bem relacionados dentro dele? Se os tribunais são hostis, por que escolher alguém conhecido por circular com desenvoltura em seus corredores? Se o combate era contra o establishment, por que abraçar o establishment quando a pressão aperta?
A resposta é simples: porque, no fim, a política real não é feita de discurso. É feita de sobrevivência.
Ibaneis pode até sustentar que a preocupação é apenas com a representação no STJ. Pode minimizar o inquérito. Pode afirmar tranquilidade. Mas o fato é que o escândalo do BRB deixou de ser técnico. Tornou-se institucional. E, agora, tornou-se eleitoral.
Para quem se coloca como pré-candidato ao Senado com discurso de direita firme, a imagem importa. E a imagem que fica é clara: quando a estabilidade política balança, o pragmatismo fala mais alto que a ideologia.
Não há crime em contratar Kakay. Há, sim, um símbolo.
E símbolos pesam.
Porque o eleitor pode até não acompanhar detalhes jurídicos. Mas percebe contradição. Percebe quando o discurso de combate ao sistema termina nas mãos de um dos operadores mais experientes desse mesmo sistema.
A Justiça decidirá o que decidir.
Mas a coerência — essa — será julgada antes.
E nas urnas.






