É quarta-feira. A eleição é no domingo. E o grande espetáculo da semana é o “desafio dos sigilos” entre Lula e Flávio Bolsonaro. Um pede a quebra. O outro aceita, mas só se o adversário abrir mais. Um diz que o outro está inventando. O outro responde com truco. A plateia assiste como se aquilo fosse um confronto de transparência. Na verdade, é um teatro barato montado a quatro dias do primeiro turno.
Mesmo que ambos autorizem tudo amanhã de manhã, os arquivos ainda demorariam para serem processados. Ninguém vai conseguir analisar movimentações bancárias, fiscais ou telefônicas com o mínimo de profundidade até sexta-feira. Ou seja: o eleitor vai às urnas sem ter visto praticamente nada de concreto. O “sigilo aberto” vira, na prática, mais uma peça de campanha que não altera o quadro real da disputa.
E há outro detalhe que torna a encenação ainda mais ridícula. Como lembrou Sergio Moro em decisões da Lava-Jato — operação hoje sepultada —, corrupção é o crime da dissimulação. Quem desvia dinheiro raramente deixa rastros em contas próprias. Os valores, quando existem, costumam estar em nome de laranjas, de empresas de fachada, de terceiros. Abrir o extrato pessoal de Lula ou de Flávio pode até gerar manchete, mas dificilmente entrega a “verdade” que os dois fingem querer mostrar.
Ambos os lados acumulam acusações, processos, investigações, áudios, prints e fotos de situações pouco republicanas. Não falta material para quem quiser cavar. O que falta é tempo útil e vontade real de tornar esses dados acessíveis antes do voto. O que está em jogo, nesta semana, não é transparência. É narrativa. É quem consegue se posicionar como “mais limpo” na reta final, mesmo sabendo que o eleitor não terá condição de checar o que está sendo prometido.
A campanha de Lula diz que não se opõe às condições de Flávio. Flávio diz que a proposta de Lula é vazia. Os dois falam em levar a verdade ao eleitor. Mas a verdade, neste calendário, só chega depois das urnas — se chegar.
Durmam com isso. Ou acordem e observem: quando dois candidatos trocam “desafios de sigilo” a quatro dias da eleição, não estão oferecendo transparência. Estão apenas disputando quem consegue parecer mais limpo no último minuto, sabendo que ninguém terá tempo de verificar o que está por trás do discurso. O jogo real, para quem ainda se importa com isso, continua sendo nas urnas. O resto é cenário.






