Por Tiago Lucero
“A indignação é inseparável da honra, da justiça, e, até, da caridade. A divindade mesma, na paciência das coisas eternas, não é superior a essas explosões violentas do bem.”
A frase é de Ruy Barbosa. Uma das mais poderosas já ditas por um brasileiro. Não é adorno. É definição.
Ele a profere pela primeira vez em 1889, nas páginas do Diário de Notícias, no volume que as obras completas guardariam depois sob o título seco de Queda do Império. Não era ainda a sentença universal que o século seguinte citaria em epígrafe. Era indignação de um grupo, contra um regime que se esboroava — a prosa de quem empurrava a República e via, na monarquia agonizante, a paciência disfarçada de virtude. A explosão violenta do bem, naquela hora, tinha endereço.
Mais de três décadas depois, Ruy Barbosa a retomou e a completou na Oração aos Moços. Paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, doente não pôde ir. O texto foi lido por Reinaldo Porchat em 29 de março de 1921. O contexto já era outro: um velho falando a bacharéis, não um republicano falando contra o trono. É essa mudança de palco que reafirma o caráter universal do que ele propõe. A sentença sobrevive à ocasião. Deixa de ser arma de facção e vira lei de caráter.
De 1889 até hoje ela nunca saiu de vez da vida brasileira. Esteve na política, no fórum, no cotidiano. Raramente, porém, teve a potência de modificação que tem agora. Porque, ao longo de décadas, foi-se retirando do brasileiro até a capacidade de identificar o que é indignação — muito menos de diferenciá-la da raiva e da mera retórica. Quando não, o processo comunicacional-educacional que tomou ação ao longo do século XX até hoje amansou o caráter nacional de tal forma que qualquer expressão potente de desacordo passou a ser automaticamente categorizada como rompante de intolerância e o seu portador estigmatizado com irascível.
O brasileiro, há mais de um século, mas, sobretudo nas últimas quatro décadas foi envolto numa engenharia social que alinha seu gentílico encarnado (o ethos) a uma estrutura estética do “boa praça”: o brasileiro deve ser gentil, polido, afetuoso, pacífico, e tolerante, tolerante a tudo, até o intolerável – a bem dizer: manso. Nesse contexto toda expressão de descontentamento já é colocada sob suspeita e se conter algum tom de indignação é primariamente categorizada como áspera, rude, intolerante e, por conseguinte inaceitável.
Tanto faz o conteúdo da mensagem, o que vale é sua forma… “mansa”. O Brasil é “pro forma”, não importa o dito, mas sim o como é dito. E esse “como” deve corresponder diretamente à estética do “bondoso, gentil, caridoso, cortês, polido e empático brasileiro”. O Brasil é “pro forma”.
A política, em especial nos últimos oito anos, encarregou-se de enterrar a indignação e excluí-la do aparelho cognitivo do brasileiro. Aquilo que já era colocado esteticamente como inaceitável — expressar a discordância de forma potente — encontrou no antagonismo político da última década a concretude que lhe corroborasse.
De um lado, estão aqueles que tornaram constantes rompantes de raiva, cinismo e ofensas contra seus adversários. Isso tudo falseando uma indignação que tem por plano de fundo o propósito de conectar o imaginário coletivo à implementação de um moralismo extremamente conservador que, ademais, se dizer liberal e democrata, nos seus rompantes, evidencia uma verdadeira intolerância. Em fato é um projeto midiático alinhado aos interesses de grupos muito específicos que almejam o poder e se dissimulam com essa indignação moralista em nome de uma suposta salvação da nação e da família. Quando não, nada mais parecem querer do que consagrar domínio sobre rebanhos de uma massa incapaz de pensamento crítico.
Do outro lado, os antagonistas instrumentalizam o contrário — amplificam a construção estética de uma falaciosa polidez. Em verdade, um comportamento passivo-agressivo: toda e qualquer discordância é automaticamente taxada, caracterizada, classificada como pertencente ao discurso do adversário — além de não corresponder a estrutura estética estabelecida (e mansa), e portanto desprovida de moralidade real, de cientificidade, de razão ou mesmo do bem.
Sim. Se um ramo se arvora a indignação falaciosa, instrumentalizada, retórica e performática, o outro condena a expressão da indignação para fazer valer, cínica e maquiavelicamente, os próprios interesses de poder. Tão hipócritas quanto os primeiros, aproveitam-se do processo educacional de décadas que implementou — como já se disse — uma estética, uma forma, uma imagem acústica, como se diz na semiótica, de um brasileiro polido, educado tolerante, manso e, a princípio, dotado de enorme empatia. Claro, uma “empatia” seletiva afeta apenas àquilo e por aqueles que esses acham correto que se tenha empatia. Usam essa fórmula para passar por cima de toda indignação genuína.
Há entre os dois lados, uma relação simbiótica. O antagonismo se catalisa. Cada um precisa do histrionismo do outro para justificar o próprio. Ambos se avocam a defesa de um bem comum. O segundo ramo, sobretudo, estrutura um discurso que parece passivo e pacífico, mas que, ao encontrar o outro lado, ressoa num histrionismo uníssono que silencia toda voz de verdadeira razão e de verdadeira indignação por todo um país.
É nesse contexto que a frase de Ruy Barbosa é profética. Há mais de cem anos já indicava a necessidade de se lembrar das propriedades da indignação. Talvez, um ato-falho, pois que suas palavras pareciam evidenciar um medo: o de que o povo afogasse sua capacidade de demonstrar o que lhe incomoda e assim perdesse a capacidade de demandar mudança — de demandar que lhe fosse feito aquilo que entende como de bem e de direito.
E dessa impossibilidade se fez uma estafa patológica e universal, e hoje o brasileiro se vê, antes de tudo cansado.
Cansado de não poder falar. Cansado de não ter a possibilidade de expressar o que lhe realmente lhe importa, que certamente é primariamente paz. Paz de espírito. Paz para trabalhar. Paz para prosperar. Paz para sua família — seja lá qual a forma que ela tiver — Paz para perseguir a própria felicidade.
Assim, o brasileiro se percebe exausto. Exausto por ter de arcar com a conta material, espiritual e psíquica da impossibilidade de expressar dentro das linhas dessa sinuca estética o que pensa ou propor o que precisa. O embate histriônico e invasivo é confirmação de que já não pode agir, falar ou se mover. Esse cansaço se projeta no espírito em uma desistência em pertencer à nação. O brasileiro está morto por dentro. Não é incomum ouvir a frase: “o melhor lugar do Brasil é a porta do avião”. Dita assim, à boca pequena e à boca grande, é o atestado deste processo: a destruição da indignação como categoria elementar da estrutura linguística que possibilita a ação, a mudança e o progresso em uma nação.
A grande maioria não se reconhece em nenhuma dessas duas estruturas pseudo-ideológicas que sequestraram o diálogo e o equilíbrio neste país. Pesquisas eleitorais e até mesmo as urnas podem fazer pensar o contrário, pois mostram um tal “país dividido”, porém a grande maioria das pessoas somente assentam seu apoio a um desses antagonistas pela impossibilidade de se ver representadas por qualquer outro construto político.
É nesse contexto que um fenômeno se estabeleceu há pouco mais de uma semana. Já avançado o processo eleitoral, a pouco mais de trinta dias da eleição presidencial uma vós eclodiu do fosso de um debate eleitoral que, ao que pretendiam os marqueteiros de plantão, deveria ser marcado pelo silêncio.
O fenômeno foi o da identificação.
No debate de 23 de agosto, na rede Bandeirantes, com a mesa esvaziada pela ausência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante) quase foi embora. Chamou o encontro de teatro. Depois voltou. Não pelo espetáculo. Pelo que restava de púlpito. E o que exalou dali não foi o moralismo de um lado nem o relativismo universalizado do outro. Foi cansaço. Foi indignação.
Só não se identificaram com seu discurso os que ainda não viram. Em cada palavra ele deixou transparecer o estado de indignação de forma potente, mas sem se encaixar nos mecanismos da instrumentalização da daqueles de se dizem de direita ou de esquerda. Falou como quem está cansado de ver os dois lados, em suas brigas, como que dois dragões que ignoram aquilo que os rodeia e acabam pisoteando o que está abaixo: tudo aquilo que um povo inteiro deseja e precisa que se fale e que se faça.
Não foi só o tom. As palavras dirigidas ao público e aos que estavam naqueles púlpitos foram ditas com potência e tranquilidade, apontando edifícios e ações ligados aos anseios reais. Falou com calma, com dicção, com didática. Sem o berro que o mercado político treinou seus operadores como única prova de existência. A indignação estava ali. A identificação foi imediata entre os que a reconheceram.
Um economista diria que a demanda reprimida (por décadas) encontrou (de súbito) a oferta. O brasileiro busca um lugar onde o bom senso e a indignação não tenham sido ainda cooptados por um “lado”.
Aliás, até o bom senso foi depauperado nesse embate – porque se para uns se transvestiu de moralismo e para outros foi desprezado em detrimento de um relativismo universal que o taxa de anticientífico, no fundo, trata-se daquilo que o brasileiro hoje mais deseja: equilíbrio. Equilíbrio para a vida. Equilíbrio nas relações entre as pessoas. Equilíbrio nas relações do Estado com a sociedade.
Nisso o ruído se espalhou rápido e se torna um eco cada vez mais alto pelas raias das redes sociais e grupos de WhatsApp, uma exclamação indagadora se tronou constante: “vocês viram o Augusto o Cury!?”.
Cury estabeleceu um novo parâmetro para o debate nesta eleição. O histrionismo agora terá de fazer face à razão. Daqui até a eleição, o que se disser naqueles palanques terá de ser posto, quer queiram quer não, ao lado dessa retomada da indignação que não grita para existir.
Pode-se não concordar com tudo o que Augusto Cury fala e propõe. Eu não concordo. Mas ele tem este mérito, e o mérito não é pequeno: trouxe para um debate esvaziado um mínimo de racionalidade, um mínimo de ponderação, um mínimo de inteligência, e se fez reconhecer a indignação de todos sem ser taxada de destempero.
Qualquer um que conheça um pouco a estrutura do eleitorado brasileiro sabe que a grande maioria não tem alinhamento ideológico com os extremos. Somente aguardava o estabelecimento de uma candidatura que ressoasse o que quer ouvir — ou, ao menos, não ressonasse o que já não suporta mais ouvir. As pesquisas da última semana apenas confirmaram o que o ouvido já tinha registrado no domingo 23: um salto de 2% para 11%, a demanda estava lá, represada, à espera de um timbre.
No fim, o que Augusto Cury preferiu, naquele palco, foi dar consecução à profecia não dita na frase de Ruy Barbosa. O não-dito é aquilo que está dito: o relembrar o que é, e para que serve, a indignação. Não a raiva de palanque. Não a polidez que amordaça. A explosão violenta do bem — essa que a própria divindade, na paciência das coisas eternas, não se julga superior.
O brasileiro cansado não pedia um santo. Pedia licença para se indignar sem ser imediatamente classificado. Por uma noite, no meio de um teatro, alguém falou nessa língua. O resto — votos, partido, programa, as teses com as quais se pode e se deve discordar — virá depois, e virá sob fogo. Antes disso, o fato literário e político já aconteceu: a categoria que Ruy Barbosa nomeou em 1889 e reescreveu em 1921 voltou à boca do país. Não como berro. Como cansaço que ainda sabe o próprio nome.






