A prisão preventiva de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, decretada nesta quarta-feira (4 de março de 2026) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), marca a terceira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal (PF). A medida decorre de indícios robustos de que o banqueiro liderava uma organização criminosa envolvida em fraudes financeiras bilionárias, corrupção, lavagem de dinheiro, invasão de dispositivos informáticos e, sobretudo, obstrução de justiça por meio de intimidação e vigilância ilegal.
Vorcaro já havia sido preso em novembro de 2025 na primeira fase da operação, mas foi liberado posteriormente, com uso de tornozeleira eletrônica. A nova prisão ocorreu em São Paulo, com cumprimento de quatro mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais. Abaixo, detalhamos os principais fatos e motivos que, segundo as investigações da PF e a decisão do STF, culminaram na decretação da prisão.
1. Liderança de Organização Criminosa e Fraudes Bilionárias no Banco Master
O cerne das investigações aponta Vorcaro como articulador principal de um esquema de fraudes no mercado financeiro, envolvendo a venda de títulos de crédito falsos pelo Banco Master, causando danos bilionários. A operação Compliance Zero apura crimes contra o sistema financeiro nacional, com o banco já liquidado. Essa base fraudulenta gerou críticas, reportagens jornalísticas e ações de ex-funcionários e concorrentes, motivando Vorcaro a adotar medidas extremas para proteger seus interesses.
2. Criação e Coordenação da “A Turma” — Estrutura de Vigilância e Coerção Privada
A PF identificou a existência de um grupo denominado “A Turma”, uma milícia privada contratada por Vorcaro para obter informações sigilosas ilegalmente e intimidar críticos do conglomerado. O grupo recebia cerca de R$ 1 milhão por mês e operava com núcleos distintos: obtenção de dados, monitoramento, ações ostensivas e execução financeira. A estrutura incluía vigilância, coerção e possível violência física, visando obstruir investigações e silenciar opositores.
3. Ameaças Diretas e Ordens de Intimidação contra Jornalistas
Vorcaro emitiu ordens diretas para atos intimidatórios contra jornalistas vistos como prejudiciais. Um caso emblemático envolve o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, que publicou reportagens sobre irregularidades no Banco Master. Em mensagens no WhatsApp (grupo “A Turma”), Vorcaro teria dito: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”. A PF e o ministro Mendonça interpretaram isso como determinação para simular um assalto e agredir violentamente o jornalista, com o objetivo de “calar a voz da imprensa” que contrariasse seus interesses.
4. Intimidação e Ameaças a Ex-Funcionários e Empregados
As conversas revelam ameaças a ex-empregados que poderiam expor o esquema. Em um diálogo com o coordenador da “Turma”, Luiz Phillipi Mourão (apelidado de “Sicário”), Vorcaro refere-se a uma ex-empregada chamada Monique: “Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda”. Outras mensagens indicam pedidos para “levantar informações” e “dar um sacode” em alvos como chefes de cozinha ou funcionários insatisfeitos, configurando coação para evitar delações ou vazamentos.
5. Acesso Ilegal a Sistemas Restritos de Órgãos de Segurança
O grupo acessou ilegalmente sistemas da Polícia Federal, Ministério Público Federal, FBI e Interpol usando credenciais obtidas ilicitamente. Mourão coordenava essas invasões para monitorar adversários, autoridades e jornalistas. Vorcaro participava das tratativas, repassando dados para decisões estratégicas. Esse monitoramento ilegal ampliava o risco de obstrução de justiça e interferência em investigações oficiais.
6. Corrupção Ativa de Servidores do Banco Central
Vorcaro mantinha proximidade ilícita com altos escalões do Banco Central (BC). Servidores como Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-chefe-adjunto de Supervisão Bancária) e Belline Santana (ex-chefe do Desup) atuavam como “consultores informais”, recebendo mesadas, viagens (inclusive à Disney) e pagamentos para repassar informações privilegiadas e influenciar análises de processos. Houve reuniões fora das dependências institucionais e contratos fictícios (via empresas como Varajo Consultoria) para mascarar propinas.
7. Papel de Integrantes Chave da “A Turma” na Execução das Ordens
- Fabiano Campos Zettel (cunhado de Vorcaro): Executor financeiro e intermediário, responsável por viabilizar iniciativas do grupo. Entregou-se à PF.
- Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão (“Sicário”): Coordenador operacional, realizava vigilância, obtenção de dados sigilosos e ações ostensivas de intimidação.
- Marilson Roseno da Silva (policial federal aposentado): Fornecia experiência policial para monitoramento e coleta de informações sensíveis.
- Outros como Leonardo Augusto Furtado Palhares e Ana Claudia Queiroz de Paiva: Lidavam com contratos fictícios e movimentações financeiras da estrutura.
8. Histórico de Prisões Anteriores e Medidas Cautelares Ignoradas
Vorcaro foi preso em 2025 na primeira fase, solto com tornozeleira. A PF alegou risco concreto de continuidade das condutas criminosas, interferência em investigações e possível fuga (ele foi abordado tentando embarcar em jatinho para os Emirados Árabes). Mendonça destacou a “dinâmica violenta” do grupo e o risco à ordem pública e às apurações.
Posição da Defesa
A defesa de Vorcaro nega as acusações, afirmando que ele sempre colaborou com as autoridades, jamais obstruiu investigações e confia no esclarecimento dos fatos via devido processo legal.
A Operação Compliance Zero continua, com apoio do Banco Central, e pode revelar mais detalhes sobre o esquema. A prisão reflete a gravidade dos indícios de uma rede que combinava fraudes financeiras com métodos de intimidação e corrupção para perpetuar o controle.






