Celina e a tesoura de 25%: choque de gestão ou operação de sobrevivência eleitoral?

Imangem: Breno Esaki - Metrópoles @brenoesakifoto

Na última semana, a governadora em exercício Celina Leão assinou um decreto de contingenciamento de até 25% nas despesas do GDF. Contratos sendo renegociados na faca, reajustes salariais suspensos, pagamentos a fornecedores em risco, nomeações travadas. Medida dura, necessária para tentar conter um rombo orçamentário que o secretário de Economia, Valdivino Oliveira, estima entre R$ 4 e 5 bilhões.

Louvável, diriam alguns.

Se ela não tivesse passado os últimos sete anos e meio ao lado de Ibaneis Rocha ajudando a construir exatamente essa desordem fiscal. Gastos sem lastro, projeções irreais, compromissos assumidos a descoberto — uma “máquina descontrolada”, nas palavras do próprio secretário. Herança maldita? Só se for herança que ela mesma ajudou a plantar e regar.

Mas o timing é interessante.

Celina corre contra o relógio. Se deixar o governo terminar o ano com déficit elevado, sem cobertura de caixa, corre sério risco de enquadrar no artigo 42 da Lei de Responsabilidade Fiscal. Deixar obrigações que não cabem dentro do mandato ou parcelas sem disponibilidade de caixa para o exercício seguinte é o tipo de irregularidade que o Tribunal de Contas e, depois, a Justiça Eleitoral costumam tratar como insanável. Rejeição de contas + dolo + improbidade = inelegibilidade na prática. Oito anos fora do jogo.

Por isso a tesoura veio agora, pesada e urgente. Não é apenas ajuste fiscal. É operação de desarmamento de bomba. Uma bomba que pode explodir sim como inelegibilidade. E aqui, vírgula, para não chamarem de “fake news” depois: não sou eu quem estou falando isso ok! É a lei, e também a imprensa que já se tocou disso, como a colega Samanta Sallum do Correio Braziliense ontem, que também lembrou que essa bomba pode virar inelegibilidade.

Sério?

A mesma governadora que tenta se dissociar da gestão anterior agora precisa cortar na carne para não entregar um rombo que a torne inelegível. A mesma que, há poucos dias, posou em “almoço da gratidão” abraçada com Ibaneis, agora assina decreto de austeridade para tentar limpar a imagem de gestora responsável.

Enquanto isso, no BRB a coisa segue complicada. A tentativa de capitalização via gestora de fundos, noticiada na coluna de Lauro Jardim, encontra no Banco Central um pessimismo “do tamanho do Himalaia”. Ou seja: nem o mercado nem o regulador parecem acreditar na solução apresentada.

Olha, o eleitor até entende a necessidade de cortar gastos. O que custa a engolir é a encenação. Celina não está chegando como salvadora de uma bagunça alheia. Ela foi parte ativa dessa bagunça por mais de sete anos. Agora a tesoura aparece não como virtude repentina, mas como instrumento de autopreservação: evitar o crime de responsabilidade que pode tirá-la do tabuleiro eleitoral.

Dissociação cognitiva seria acreditar que o povo não percebe essa coreografia. Puro cinismo seria achar que, com um decreto bem publicado e alguns discursos de “choque de gestão”, a conta política simplesmente desaparece.

Durmam com isso. Ou acordem e observem: quando quem ajudou a plantar o rombo bilionário precisa cortar 25% de tudo às pressas para não virar inelegível, não é sinal de responsabilidade fiscal repentina. É sinal de quem descobriu, um pouco tarde, que a conta sempre chega — e que, desta vez, pode chegar acompanhada de uma certidão de inelegibilidade.

O povo pode ter memória curta. Mas dificilmente perdoa quem riu, abraçou e posou de grato enquanto a bomba fiscal era armada — e só pegou a tesoura quando sentiu o cheiro de explosão perto demais da própria cadeira.

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