Nos últimos dias, o cenário político do Distrito Federal — já envolto pelo escândalo da tentativa de compra fraudulenta do Banco Master pelo BRB e todas as suas decorrências no xadrez eleitoral — mergulhou de vez num dramalhão de novela mexicana. O enredo central tem uma palavra que o brasileiro adora (e odeia): traição.
Celina Leão, que atuou como vice-governadora ativa durante quase todo o mandato de Ibaneis Rocha, resolveu jogar sobre o ex-chefe toda a responsabilidade pelos desmandos que levaram ao “caos administrativo” admitido pelo próprio secretário de Economia dela. Um rombo que se aproxima dos R$ 6 bilhões nas contas públicas, além dos R$ 15 bilhões em prejuízos e títulos podres do “rolo” BRB/Banco Master.
Durante anos os dois posaram juntinhos, repetindo em público “governamos juntos”, com declarações de cumplicidade e apoio mútuo. Agora é guerra aberta. Celina tenta se apresentar como a “boa moça” que chegou para arrumar a casa, como se não tivesse participado ativamente de todas as decisões que levaram o Distrito Federal a este ponto.
Mas a pergunta incômoda que fica no ar é: quem realmente traiu quem?
No imaginário brasileiro, traição tem peso diferente. O povo releva muita coisa — corrupção, desmandos, roubalheira —, mas dificilmente perdoa “chifre”. O corno costuma despertar pena. O traidor, repulsa. E é exatamente por isso que Celina insiste tanto na narrativa de vítima: quem sai como traído leva a empatia popular; quem sai como traidor, leva a execração.
E no meio desse enredo, mais um capítulo medonho: MDB-DF vive implode em uma guerra civil interna. De um lado, Wellington Luiz, presidente da Câmara Legislativa, que se bandeou para o lado de Celina. Do outro, Ibaneis, Rafael Prudente e outras lideranças históricas do partido. O mesmo Wellington que estava ao lado de Ibaneis no momento do discurso do rompimento agora troca de lado com impressionante desenvoltura. Celina o recebeu de braços abertos, cheia de cortejos e acenos.
É o clássico enredo de novela: traidor, traído, talarico, herança maldita (política, neste caso) e muita disputa pelo poder.
A máquina de comunicação do Buriti trabalha a todo vapor para pintar Celina como a traída da história. Mas será? .
E como desvendar esse mistério – sim é um mistério, não sabemos os detalhes, os acordos e discussões que aconteceram longe do olhar público – desvendar os fatos não é assim tão simples.
Para analisar esse episódio com um pouco mais de frieza — algo que parece estar em falta nos corredores do poder —, podemos recorrer aos elementos clássicos de uma investigação: os fatos, o motivo, os meios e a oportunidade.
Do ponto de vista factual, a sequência é bastante simples. Ibaneis deixa o governo, indica Celina como sua sucessora e a apoia publicamente como pré-candidata. Ela assume, muda o logo do GDF, altera o discurso e passa a jogar toda a culpa no antecessor. Ibaneis, por sua vez, manifesta publicamente seu desconforto com a narrativa de que seria o único responsável por tudo que deu errado.
Quanto ao motivo, a coisa fica ainda mais interessante. Ibaneis não tinha motivo evidente para trair quem ele próprio colocou no poder. Celina, por outro lado, tinha um motivo bastante prático: Ibaneis está queimado até o osso junto à opinião pública por causa do escândalo do BRB. Manter-se colada a ele significava carregar uma imagem tóxica em plena pré-campanha. Traí-lo e se apresentar como a “boa moça que chegou para consertar a bagunça” era, na prática, uma estratégia de sobrevivência política bastante conveniente.
No que diz respeito aos meios, a desigualdade é quase constrangedora. Celina dispõe de toda a estrutura do Estado: orçamento, máquina pública, nomeações, estrutura de comunicação e capacidade de pautar a mídia. Ibaneis, já fora do cargo e enfraquecido, conta basicamente com sua rede pessoal e com uma parte rachada do MDB. É como colocar um boxeador peso-pesado contra alguém que acabou de sair de uma internação.
Por fim, a oportunidade era excelente. Ibaneis acabara de deixar o governo, estava politicamente fragilizado e com dificuldade de reação imediata. O momento parecia perfeito para Celina avançar com a estratégia de descolamento sem encontrar muita resistência.
O problema é que o cálculo parece ter subestimado dois fatores: a capacidade de reação de Ibaneis e, principalmente, o custo de rachar o MDB. Sem MDB, sem CLDF na mão.
Se perder o controle da Câmara Legislativa, Celina enfraquece sua capacidade de aprovar medidas impopulares — como o polêmico empréstimo bilionário que pretende tomar para tentar “salvar” o BRB, operação que, se concretizada, vai hipotecar o futuro do Distrito Federal por muitos anos.
A população brasileira costuma ter pena do traído e ódio do traidor. Celina apostou que conseguiria ocupar o lugar da vítima. Resta saber se essa narrativa vai resistir quando os fatos forem colocados lado a lado com os interesses em jogo.
Durmam com isso. Ou acordem e observem: quando a traição é calculada como estratégia eleitoral, ela costuma deixar rastros. E, no caso do Distrito Federal, esses rastros estão ficando cada vez mais evidentes — e menos convincentes.






