O rastro de sangue que acompanha a gestão da saúde de Celina Leão

No início do governo, Celina Leão anunciou com pompa o cancelamento das festas de aniversário de Brasília para transferir R$ 25 milhões à saúde. Soou como uma medida séria, concreta, quase um ato de sacrifício político. Parecia que, finalmente, a governadora tinha decidido encarar o caos da saúde pública. Passados alguns meses, fica claro que aquilo não passou de mais um factóide bem embalado. A saúde não apenas não melhorou — ela piorou. E piorou de forma tão grave que mortes dentro de unidades públicas deixaram de ser notícia excepcional para se tornarem quase rotina no noticiário do Distrito Federal.

Nos últimos 60 dias, o rastro de mortes na rede pública de saúde do DF se tornou difícil de ignorar. Um homem de 49 anos morreu sentado numa cadeira de rodas na recepção da UPA do Recanto das Emas sem sequer ter passado por triagem. Outro paciente precisou ter parte das nádegas amputadas no Hospital de Base depois de ficar tanto tempo deitado na mesma posição aguardando atendimento que desenvolveu escaras graves. Houve ainda pelo menos duas mortes de gestantes em hospitais públicos do Distrito Federal. E, em meio a tudo isso, circularam relatos de uma morte que teria ocorrido praticamente ao vivo, sem que a equipe conseguisse dar o devido suporte ao paciente.

Não são casos isolados. São sintomas de um sistema que está falhando em sua função mais básica: impedir que as pessoas morram por falta de atendimento. Faltam médicos, faltam equipamentos, faltam leitos, faltam exames e, acima de tudo, falta gestão. O dinheiro existe — ou pelo menos existia —, mas parece evaporar antes de chegar onde deveria. Enquanto isso, a governadora segue o seu ritual diário de anúncios: vai resolver a fila, vai criar centro especializado, vai atender quem a abordou na rua. Tudo soa como ação, mas nada se concretiza de forma estrutural. É sempre o mesmo padrão: uma promessa pontual, uma foto, um vídeo e, no dia seguinte, outra morte.

Celina gosta de dizer que chegou para “arrumar a casa”. O problema é que a casa que ela ajudou a administrar durante quase quatro anos como vice-governadora e que agora comanda como titular está produzindo mortes evitáveis. Quando um homem morre numa cadeira de rodas dentro de uma UPA, quando uma gestante morre por falta de atendimento adequado, quando um paciente perde parte do corpo por ter ficado tempo demais esperando, não estamos falando de fatalidade. Estamos falando de falência de gestão.

A saúde pública do Distrito Federal não está em crise. Ela está em colapso. E esse colapso não começou ontem. Ele foi sendo construído ao longo dos últimos anos, com decisões, omissões e prioridades que transformaram o sistema em uma roleta-russa para quem depende dele.

Durmam com isso. Ou acordem e observem: quando as mortes dentro de unidades de saúde deixam de ser exceção e passam a fazer parte do noticiário cotidiano, e o governo responde com factoides e promessas pontuais, não estamos mais diante de um problema de saúde. Estamos diante de um problema de responsabilidade. E responsabilidade, dona Celina, não se transfere com discurso. Ela recai sobre quem está no comando.

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