O Instagram matou o debate político

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro ontem na Band deixou evidente: em tempos de rede social, debate tem de ser “instagramável” e só serve para produzir os 15 segundos que vão virar um Reels.

O primeiro debate direto entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva na Band confirmou o que já era visível nas redes: o formato clássico de debate político na televisão aberta morreu. Não porque os candidatos não saibam falar. Porque o que vale agora não é o que se argumenta no ar. É o que se corta depois.

Propostas ficaram em segundo plano. Projetos, números, incongruências de longo prazo e discussão de ideias deram lugar a uma sequência de ataques ensaiados para a edição. A troca de acusações pareceu construída para o horário eleitoral e, sobretudo, para os 15 segundos que cada campanha precisa jogar no Instagram, no TikTok e no X. Ninguém mais vai ao debate para debater com o adversário. Vai para sair de lá com o clipe.

O adversário como cenário

Flávio circulou atrás de Lula durante boa parte do programa para permanecer no quadro enquanto o petista falava. A manobra irritou a equipe do presidente. Não era debate. Era disputa por pixel. Lula administrou melhor o tempo no primeiro bloco, mas perdeu a vantagem ao chamar o adversário de “malandro carioca” — frase que deu ao senador direito de resposta e, ao mesmo tempo, um corte pronto.

Os ataques seguiram o mesmo padrão. Flávio tentou constranger Lula com a relação do filho do presidente com a lobista Roberta Luchsinger. Lula respondeu com o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse, ficção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Em outro momento, o petista usou o fim da escala 6×1. O senador usou a defesa da redução da maioridade penal. Cada um escolheu o ponto que gera reação imediata, não o que exige explicação.

O que o formato não comporta mais

Debater ideias, mostrar incongruência de proposta, confrontar projeto com número e sustentar argumento por mais de um minuto exige tempo e atenção. O ambiente das redes não oferece nenhum dos dois. O eleitor que decide no celular não assiste ao bloco inteiro. Assiste ao corte que a campanha escolheu. E o corte precisa caber em 15 segundos, ter uma frase de impacto e funcionar sem contexto.

Nesse regime, o debate na TV deixa de ser arena de confronto e vira estúdio de produção. Os candidatos sabem. Os marqueteiros sabem. Os mediadores, muitas vezes, ainda fingem que o formato antigo continua valendo. O resultado é um programa tenso, barulhento e pouco informativo — exatamente o material que as redes consomem melhor.

O que sobra

A margem estreita das pesquisas explica parte da estratégia. Quando a conversão é rara e a rejeição é alta, ampliar o asco ao outro lado rende mais do que tentar convencer. O debate na Band foi usado para isso. Não para apresentar governo. Para gerar o fragmento que confirma, para cada lado, que o adversário é intolerável.

O formato clássico — propostas, réplicas, números, tempo para argumentar — não sobrevive a essa lógica. Ou a televisão adapta o debate ao que as redes exigem (cortes curtos, momentos de impacto, menos tempo de fala contínua), ou continua produzindo programas que só existem para serem fatiados depois. No segundo caso, o debate político na TV já morreu. O que resta é o set de gravação.


Por James Licht

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