Porque a campanha do ‘medo’ e ‘desqualificação’ que a esquerda fez pode estar ativando a reação contrária

Por Tiago Lucero,
Antropólogo, especialista em antropologia econômica

A campanha de Lula tenta, desde o dia 4, dois movimentos para virar jogo das eleições: convencer indecisos pela desqualificação do adversário e tirar da abstenção quem teme o bolsonarismo. Os dois gestos, porém, podem estar disparando o efeito contrário, e isso pode explicar por que as pesquisas não se movem para uma virada.

O marketing de Lula concentra o esforço final em dois pontos. O primeiro é ativar indecisos investindo na desqualificação de Flávio Bolsonaro. O segundo é ativar quem não votou no primeiro turno pelo medo, sobretudo os que dependem de benefícios associados ao lulismo e os que carregam alguma rejeição ao bolsonarismo. Os dois movimentos são racionais dentro da lógica de quem está atrás. Mas os dois, ao mesmo tempo, podem estar abrindo a reação no sentido contrário.

O “eles também”

Colar a imagem de corrupção em Flávio é o caminho escolhido para o indeciso. O problema é o que a mensagem carrega quando chega. Ela não chega isolada. Chega como “eles também”. A comparação é imediata. O eleitor que registra a acusação contra Flávio registra, no mesmo movimento, os envolvimentos históricos do lulismo e do petismo com escândalos de bilhões — inclusive recentes, que envolvem até o filho do presidente. O gesto que deveria reduzir o adversário reativa a memória do próprio campo. Apontar o dedo, neste caso, aponta também para si.

No fim, a comparação pode se tornar irrelevante para quem já decidiu lá no fundo com base em suas inclinações. Para quem ainda hesita, ela mantém a dúvida dos dois lados. E para quem já rejeita o lulismo de qualquer forma, a investida só confirma o motivo da rejeição.

O medo que atravessa o mapa

O segundo movimento mira a abstenção. O objetivo é fazer sair de casa quem teme um governo Flávio — seja por dependência de benefícios (pelo medo de perdê-los), seja por rejeição ao bolsonarismo. O risco é simétrico. O mesmo medo ativa quem rejeita Lula e não se predispôs a votar no primeiro turno.

E nisso o mapa da abstenção não é neutro. No Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, a média ficou acima de 20%. No Nordeste, não chega a 19%, e isso é determinante. Por exemplo, o Piauí, um dos estados mais lulistas, registrou cerca de 15%. Mato Grosso do Sul, um dos mais bolsonaristas, ficou perto de 24%. Onde Lula já tem vantagem consolidada, menos gente ficou em casa. Onde ele não tem, a ausência foi maior. Ativar o medo de Flávio nessas regiões pode ter efeito contrário: pessoas que ficaram em casa no primeiro turno, porque não se alinham exatamente a Flávio, podem levantar do sofá para ir votar nele por medo de uma virada lulista.

A presença ostensiva da militância nas ruas reforça o mesmo efeito. Para quem já está ligado ao governo, é chamado. Para quem se identifica com o antilulismo — mesmo de forma rasa — e não votou, é alerta.

O que as pesquisas ainda mostram

Até aqui, os números permanecem próximos aos do final do primeiro turno. Flávio segue ligeiramente à frente, por algo em torno de um ponto. O esforço contínuo desde o dia 4 manteve a disputa viva. Não produziu a virada desejada pela esquerda de que a ativação de indecisos e abstencionistas gerasse uma virada. Possivelmente porque essa ‘ativação’ funcionou em duas direções.

Por fim, os movimentos da campanha de Lula parecem estar ativando, ao mesmo tempo, a reação contrária. A desqualificação reabre a conta do próprio campo. O medo atravessa o mapa da abstenção e encontra mais gente em casa onde o antilulismo é mais forte. Isso ainda será comprovado ou não no domingo. O que se pode observar agora é que as pesquisas não se movem para uma inversão.

No dia 25 saberemos o quanto a investida ativou de apoio — e o quanto ativou de rejeição.

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Tiago Lucero é antropólogo, sociólogo, estudou Economia e Direito, é especialista em antropologia econômica e analise de movimentações de massa.
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