Contag é suspeita de influenciar Congresso para manter esquema que desviou R$ 2 bilhões
A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), alvo de operação da Polícia Federal, redigiu 96 emendas para alterar a Medida Provisória 871/2019, que buscava combater fraudes no INSS. Os textos foram assinados por deputados e senadores de esquerda, mas os metadados revelam que foram produzidos nos computadores da própria entidade.
Entre os parlamentares que apresentaram as emendas estão nomes do PT, PSOL, PCdoB, PSD, MDB e até um do PL. O lobby conseguiu resultados: uma das mudanças defendidas pela Contag — o fim da revalidação anual dos descontos associativos nos benefícios — foi aprovada pelo Congresso. A regra foi substituída por uma revalidação a cada três anos, que, na prática, nunca chegou a valer.
A PF aponta que a Contag foi responsável por movimentar cerca de R$ 2 bilhões em descontos nos últimos cinco anos, e vê indícios de lavagem de dinheiro envolvendo diretores da entidade e a agência Orleans Viagens, que recebeu R$ 5,2 milhões e comprou carros de luxo com dinheiro sem origem comprovada.
Os políticos citados negam irregularidades. A maioria diz que apresentou emendas em nome das bancadas ou por demanda institucional da Contag, como ocorre com outras entidades. Jandira Feghali (PSOL-RJ) e Jean Paul Prates (PT-RN) afirmaram que receberam as sugestões por email e analisaram antes de assinar.
A Contag alega que a MP 871 buscava cortar benefícios de segurados rurais e que sempre atuou no Legislativo para defender os trabalhadores. A entidade “repudia generalizações” e diz que não pode ser comparada a organizações que fraudam o sistema.
A investigação da PF, no entanto, aponta que o presidente da Contag pediu diretamente ao INSS o desbloqueio em massa de quase 35 mil benefícios para inclusão de descontos, o que foi considerado irregular pela auditoria interna da Previdência. A apuração continua no âmbito da Operação Sem Desconto.






